Copyright by  Petit Editora e Distribuidora Ltda. 1997
1! edio/impresso: outubro de 1997 - 50.000 exemplares.
PETIT EDITORA E DISTRIBUIDORA LTDA.
Direo de Arte:
Flvio Machado
Capa, criao e produo:
Anastase Kyriakos (Nasa)
Editora de arte:
Cristiane Alfano
Coordenao editorial:
Slvia Sampaio Ribeiro
Fotolito da capa:
Stap Studio Grfico
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara
Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Carlos, Antnio (Esprito)
Aqueles que amam / pelo esprito Antnio Carlos; psicografia Vera Lcia
Marinzeck de Carvalho. So Paulo: Petit, 1997. "*
ISBN 85-7253-038 1. Espiritismo 2. Psicografia 3. Romance brasileiro I.
Carvalho, Vera Lcia Marinzeck de. II. Ttulo.
97-4038
CDD-133.93
ndices para catlogo sistemtico:
1. Romances medinicos : Espiritismo    133.93
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obra. Informe-se,  melhor do que assumir dbitos.
Impresso no Brasil na primavera de 1997


ANTNIO CARLOS
Psicografado por
VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO
Filho Adotivo
Reparando Erros
A Manso da Pedra Torta
Palco das Encarnaes
Aconteceu
Muitos so os Chamados
O Talism Maldito
 Violetas na Janela
Pelo esprito *- Vivendo no Mundo dos Espritos
Patrcia: A Casa do Escritor

O Vo da Gaivota
Por espritos diversos:
 Valeu a Pena
Perante a Eternidade


ndice
. Introduo 7
1 A mudana 13
: 2 Lourdinha 21
3incidente 29
   4   A estalagem 38
5 uma outra mudana 46
6 Querendo aprender a amar 55
7 Jos Maria 63
8 Com a famlia 73
9 Construo do novo colgio 81
10 A casa assombrada 91
11 Tramas no convento 100
12 O grupo desfeito 112
13 Tarefa realizada 120
Eplogo 131


Introduo
Muitas vezes nos entristecemos com as lembranas do passado. Porm,
nossos atos nos pertencem. As boas aes nos ensinam,  de bom senso que
as recordaes das ms aes nos motivem a repar-las. Mas mesmo os que
j se sentem quites consigo mesmos emocionam-se diante de fatos passados.
Espanha. Auge da Inquisio. Mdico esforado, gostava da profisso. Tive
a honra, era assim que sentia naquela poca, de curar de uma doena de
difcil tratamento um monsenhor da Santa Inquisio, na regio onde
residia.
Vivia bem com minha famlia. Relativamente bem, j que naquela poca
todos tinham medo, estavam inseguros. Era casado, tinha quatro filhos,
todos sadios, morvamos numa casa grande e bonita.
Este monsenhor (no citarei nomes porque, para mim, nomes so
transitrios, no importam, e ser denominado numa encarnao em que
espalhamos terror, medo e dio  bem deprimente), grato, me elegeu como
mdico da Congregao. no gostei muito, mas at a, tudo bem, seriam
pacientes a mais.
Mas sempre temos um 'mas' que em certas colocaes nos incomoda. Fui
chamado para uma conversa particular com o monsenhor.
"Meu caro doutor - disse ele arrogante -, confio em voc. Sabe que gosto
que um mdico assista s sesses de interrogatrio. E escolhi voc para
ficar no lugar do mdico anterior".
"O que aconteceu com o dr. C...?" - indaguei assustado.

"Ele no  digno de continuar com to importante trabalho para a Igreja.
 um traidor!"
Diante de sua resposta, no ousei recusar o convite. Falei gaguejando:
no sei se estou  altura do cargo que me oferece."
"Est! Eu acho e est! - respondeu o monsenhor autoritrio, me olhando
prepotente. -Voc no vai se negar a aceitar, no ? Alerto que se negar
considerarei como desfeita".
" que gosto de clinicar e..."
"Ora, poder continuar, trabalhar conosco somente alguns dias por ms. 
dinheiro? Claro! no se preocupe, ser bem remunerado. Comea na quinta-
feira, quando teremos um interrogatrio."
Deu por encerrada a conversa. Fui para casa desesperado. Assim que
cheguei, contei tudo  minha esposa.
"Fiquei sabendo que o dr. C... apareceu morto no rio - disse ela. - no
se sabe bem o que aconteceu, uns dizem que foi assassinado, outros, os
mais chegados  famlia, dizem que se suicidou. A famlia est indo
embora e levando s as roupas, como dizem por a, esto deixando todos os
bens para a Igreja. Vo se mudar para a Frana, onde tm parentes. Muito
estranho, no acha? J tinha escutado que ele no queria mais trabalhar
para o Santo Ofcio. E deu nisto!"
"O que fao?" - indaguei-lhe aflito.
"Ora, meu caro, voc no tem escolha. Trabalhe para eles."
"Sabe bem que terei que participar de interrogatrios que so realmente
sesses de tortura. Meu trabalho ser examinar os torturados para ver se
agentam ou no as barbaridades. no posso aceitar..."
"Vai aceitar, sim! - gritou ela autoritria. - Vai! Voc no tem escolha!
Ou voc trabalha ou quem ser torturado  voc! Ou ns! no pensa na sua
famlia? Que ser de mim? Dos seus filhos?"
Tinha muitos argumentos. Ao ouvi-la, parecia que estava conhecendo apenas
naquele momento sua
8

verdadeira personalidade. Era ambiciosa e pensava nas vantagens que
teramos, seramos bajulados por muitas pessoas e seramos ricos. Mas
tambm havia o medo, o temor de perder tudo, at a vida, e de maneira
cruel.
Covarde, achei que no tinha escolha. Horrorizeime no primeiro dia.
Escutava falar das barbaridades, mas presenci-las foi horrvel. Fui para
casa arrasado, vomitei a noite toda.
Quis fugir com a famlia para outro pas, mas minha esposa me convenceu a
ficar.
"Voc se acostuma! Antes estes hereges do que voc ou ns. J pensou se
no der certo nossa fuga? J pensou suas filhas nas nos destes homens?"
Fui ficando. Tentava s escondidas, quando era possvel, amenizar os
sofrimentos dos prisioneiros, dos hereges, como eram chamados. Muitas
vezes levava gua em recipientes ocultos na roupa, dando-lhes remdios
para aliviar dores. Pedi perdo a muitos deles. Anos se passaram,
covarde, no fui capaz de dizer no ao Santo Ofcio, aos membros
inquisidores. E sempre fui motivado a continuar pela minha esposa. Mas
aqueles interrogatrios faziam-me muito mal. Tornei-me triste e adoeci.
Fiquei perturbado. Dizia estar cansado e o monsenhor me afastou. Minha
famlia sentiu-se aliviada porque muitos doentes mentais eram tidos como
possuidores do demnio, torturados e mortos. Minha esposa me prendeu em
casa, contratou empregados para cuidar de mim. Nesta poca estvamos bem
ricos. Ou melhor, eles, meus familiares estavam.
As cenas cruis que vi no me saam da cabea, me desequilibrei, perdi a
noo de tudo. Enlouqueci. Quando meu corpo fsico morreu, minha famlia
sentiu-se aliviada e continuaram a gastar a fortuna que acumulei.
Desencarnei e em esprito continuei atormentado, a vagar pelo cemitrio e
pela antiga casa, mais perturbado do que antes. no fui obsediado e
ningum me perseguia querendo se vingar. Sofri pelos meus prprios atos.
Nenhum indivduo que vi sendo torturado me julgou culpado. Mas eu sim! E
foi mais que suficiente. Nossa prpria condenao

 mais rgida. Por muitos anos fiquei com as cenas que presenciei na
mente, no tinha descanso, lembrava-me delas noite e dia. Tinha
conscincia de minha culpa, mas tambm culpei minha esposa. Tive raiva
dela, depois a odiei. Era ela, pensava, a maior culpada, a causa do meu
sofrimento. Sempre  mais fcil colocar a culpa dos nossos erros nos
outros. S mais tarde entendi que ns dois fomos culpados e que no podia
fugir dos meus erros. Mas, naquele momento, julgava-me no inferno, estava
desesperado, culpava-a, achava que fora ela a me motivar, a me obrigar a
ficar servindo ao Santo Ofcio. no pensei em vingar-me, no tinha
condies. Mas odiei-a e prometi no a ver nunca mais. Queria estar longe
dela.
Os anos se passaram, at que Jos Maria, um esprito bonssimo que quando
encarnado fora sacerdote e por ter enfrentado a Inquisio foi torturado
e morto, veio em meu auxlio. Conversou muito comigo, ajudou-me. Tornamo-
nos amigos. Socorreu-me e tive outras oportunidades pela reencarnao.
Muito tempo se passou. Em outro corpo, outra personalidade, estive
empregado como capataz numa fazenda.
Conheci Lourdes, a negra Lourdinha, e antipatizei profundamente com ela.
um dia seu esposo sumiu e coloquei-a no tronco, exigindo que ela me
falasse onde ele estava.
Estranhei esta minha atitude. Achava a escravatura cruel e injusta, nunca
havia batido em ningum. Naquela fazenda no se aplicavam muitos castigos
aos escravos. Ela dizia no saber dele. no acreditei e a chicoteei.
O senhor da fazenda, vendo o injusto castigo, mandou solt-la e me
despediu. no tive no momento remorso algum, aquela negrinha de quem eu
no gostava mereceu o castigo. Bati com raiva.
Muito tempo se passou. Mas o que  o tempo seno a ordem dos
acontecimentos? Uma seqncia de fatos? A vida  soma do tempo? A soma de
dias, de anos e de sculos? Se assim for, a vida ficar envelhecida? A
vida  o tempo?
10

no, a vida no  o tempo. A vida  a negao do tempo. O tempo  o
produto de nossa conscincia e  medido por ela em termos das lembranas
do passado entrando em contato com o presente. Projeta esperanas para o
futuro. Isto  o tempo. Vida  plenitude. no no sentido de ociosidade,
pois  s na relatividade do relacionamento que a vida se manifesta. Sem
relacionamento no h vida.
Quis a espiritualidade que nos reunssemos novamente, eu e aquela que
fora minha esposa e veio a ser Lourdinha, agora reencarnada em outro
corpo. Para reparar nossos erros fomos chamados a fazer um trabalho
juntos. Tornamo-nos grandes amigos. Antes de ir ao seu encontro, soube de
todo o ocorrido. Calei-me. Deixei que o tempo, este fator imprescindvel,
se encarregasse de nos amadurecer. Sabia que um dia ela saberia, se
recordaria de tudo. Esperei.
Nosso trabalho passou a dar bons e doces frutos e conseqentemente, como
acontece sempre, atrapalhamos os que no concordam conosco no momento.
Um destes discordantes, tendo conhecimento dos fatos narrados, passou a
for-la a se lembrar. no interferi. Aguardei ansioso o desenrolar dos
acontecimentos.
Minha companheira de trabalho comeou a recordar. As chicotadas lhe
pareciam reais, ouvia o estalar do chicote, parecia que as roupas estavam
encharcadas de sangue. E cismou:
"Ser que no passado chicoteei algum?"- indagou a si mesma, tristonha.
Logo concluiu que foi ela a chicoteada. Como tambm entendeu que o algoz
era agora um ente querido.
"Quem ser? - pensou. - Ora, no tem importncia, seja quem for, vou
continuar a am-lo. Tudo tem motivo e ele ou esta pessoa teve os dela.
Tudo j passou e no tem mais importncia".
Porm comeou a observar todos que a rodeavam.
"Este? Ser aquele ou aquela?"
At que me olhou profundamente. no enfrentei seu olhar, abaixei a
cabea.
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"Foi o senhor?" - perguntou timidamente.
"Sim - respondi encabulado -, me perdoa?"
"Perdo - respondeu sincera e sorrindo com seu modo delicado. - Por
favor, no se sinta devedor. O esprito discordante que por dias estava
com ela abaixou a cabea e se retirou.
Olhamo-nos emocionados e disfaradamente enxuguei as lgrimas.
A exemplo daqueles que amam, aprendemos a amar...
E a todos que tm o amor como objetivo maior de suas vidas, dedicamos
este livro.
Antnio Carlos So Carlos - SP - 1997
21 A Mudana
 Nasci na Espanha, filho de pais lavradores e de famlia numerosa.
Freqentei por pouco tempo a escola onde aprendi a ler e escrever.
Orgulhava-me disto, gostava de estudar, mas infelizmente tive que
trabalhar. Nossa vida no era fcil, trabalhvamos muito e vivamos
pobremente.
Conheci Dolores numa festa e nos apaixonamos. Foi uma felicidade quando
consegui coragem, aps uns encontros, para dizer:
- Dolores, amo voc. Quer ser minha esposa?
- Loureno, eu tambm lhe quero muito. Aceito! Prometo ser uma esposa
dedicada.
ramos jovens quando casamos. Ela era meiga, doce e muito bonita. Ficamos
morando com meus pais, pois todos meus irnos j estavam casados. Logo
vieram os filhos. O primeiro, menino, chamou Jos Maria, amei-o
profundamente, como tambm os outros, Joaquim, Maria Imaculada, Eva e
Laura, a Laurita.
Dolores e eu nos dvamos muito bem, ela era uma esposa dedicada,
trabalhadeira e nos amvamos muito. Trabalhava na lavoura, porm no era
fcil, os invernos rigorosos, pragas nas plantaes e, no tempo de vender
a colheita, os preos eram baixos. Nosso esforo era enorme.
Meus pais morreram num curto espao de tempo e o stio que tnhamos foi
repartido. Fiquei com uma parte pequena.
Muitos espanhis estavam vindo para as colnias na Amrica e, pelas
notcias, estavam se saindo bem. Tinha um primo, Amncio, ramos amigos,
nos dvamos muito bem e sua esposa era amiga de Dolores. Numa tarde, veio
nos visitar, chegou eufrico  minha casa.
- Loureno, vou para o Brasil! Por que no para as colnias espanholas?
- indaguei-o.
- Prefiro o pas que parece ter a forma de corao. O Brasil  grande e
farto, suas riquezas so abundantes. Prefiro a colnia portuguesa. vou
com a famlia morar l. Vamos nos aventurar. Venho convid-lo. no quer
ir conosco? no vejo como melhorarmos aqui. Trabalhamos muito e vivemos
na pobreza. L, trabalhando se progride. Venha conosco!
- no sei - respondi -, preciso pensar. Dolores est grvida e no sei se
terei dinheiro para as despesas.
- Dolores est no comeo da gravidez, ter o filho nas terras
brasileiras. Venda tudo que tem e vamos tentar a sorte em outras terras.
- Quer mesmo ir para a colnia portuguesa?
- Quero e vou! Sonho com aquelas terras onde no inverno no cai neve, em
que a terra produz tudo o que se planta.  ptria generosa!
Entusiasmei-me tambm. Conversei com Dolores.
- Loureno, amo a Espanha - disse ela -, mas no sou apegada. Sei que
Amncio  muito entusiasmado. Prefiro ter os ps no cho. Nada  fcil.
Sem trabalho perseverante e honesto no se progride com a conscincia
tranqila. L no teremos facilidades, mas oportunidades de trabalho.
Sempre foi seu sonho imigrar para as colnias e junto com Amncio e
Marita ser mais fcil. no iremos sozinhos. E, como a colnia portuguesa
 to grande e rica, sempre teremos muitas opes.
- Mas voc est grvida!
- Ora - respondeu ela -, gravidez l ou aqui, os riscos so os mesmos.
Depois, sinto que s terei mais este filho. s vezes tenho a sensao de
que irei mudar. Ir embora para um lugar distante, onde sentirei muitas
saudades e no voltarei mais.
- Voc deve ter previsto nossa viagem. no ser uma grande mudana? E, se
der certo, no ter retorno.
14

- E - disse Dolores baixinho -, talvez seja isto ou ento a morte...
Fui atender a um filho que me chamava entusiasmado, nem prestei muita
ateno no que Dolores me disse. A morte era a ltima coisa em que
pensava naquele momento.
Motivado por Amncio, fui ver a possibilidade de irmos. Os familiares
incentivaram, embora ningum mais se aventurasse a ir conosco. Achando
que me daria bem em terras novas, cheio de sonhos e esperana fui com meu
primo conversar com o proprietrio do navio. A embarcao iria para o
Brasil, mas para todos seu destino era as colnias espanholas. O preo me
pareceu razovel, com a venda do meu pedao de terra e com nossas
economias pagaria as passagens do navio e ainda sobraria dinheiro para
investir em alguma coisa no Brasil.
Vendi as terras para um dos meus irnos e esperamos ansiosos pela
partida, hs vsperas de viajar, o proprietrio do navio quis mais
dinheiro. Alegou que cobrara barato e que a procura era grande.
Inconformados, pagamos a diferena e nossas reservas financeiras
diminuram. As despedidas foram alegres. Todos familiares e amigos nos
desejaram xito. Samos da Espanha numa manh bonita, nos acomodamos do
melhor modo possvel no navio. ramos quatro adultos e onze crianas,
cinco nossos e sete de Amncio e Marita.
Quando o navio se afastava da costa espanhola, senti um aperto no
corao. Ficamos no convs, olhando. Todos calados. Senti que no
voltaria mais. Consolei-me pensando que estavam comigo todos que amava e
nada me prendia  terra natal. Ali deixamos irnos, sobrinhos, tios e
primos. Agora nossa famlia ramos somente ns e ficamos muito unidos.
Marita foi quem quebrou o silncio.
- Adeus, Espanha querida! Creio que no voltarei mais! Adeus!
Logo vi que no ia ser fcil a viagem, estvamos muito mal acomodados, a
comida era ruim e a maioria enjoava com o balano do navio. Temamos as
tempestades e possveis ataques de piratas.
15

Eva, minha filhinha, aps uns dias de viagem comeou a vomitar mais que
os outros e a obrar muito. Remdios e chs foram dados, mas no fizeram
efeito, piorava, at que desencarnou. Tinha quase quatro anos, era linda,
cabelos castanhos claros e cacheados, esperta e ativa. Mas ao desencarnar
estava magra, com olheiras profundas e muito plida. Segurei seu corpo
inerte por meia hora. Que profunda dor! O tempo passa e ao recordar
episdios de separao de entes queridos sentimos um pouco da dor do
passado. Amncio tirou-a dos meus braos e a levou para que fosse jogada
ao mar. no quis ver, Dolores tambm no.
Dolores entristeceu-se profundamente, parecia arrependida por ter se
aventurado naquela viagem, mas nada disse. Percebendo que ela sofria
muito, talvez mais do que eu, passei a ser mais atencioso com ela. Amava
minha esposa e foi ela quem me consolou:
- Loureno, no chore assim. Nossas lgrimas podero molhar as asas do
nosso anjo, de nossa filhinha que agora  um anjinho, e podemos impedir
que ela suba ao cu.
- Voc tem razo, Dolores - disse, tentando sorrir.
- Quando nascemos, a nica certeza  a de que iremos morrer. Todos
morremos!  algo que deveria ser natural, porm complicamos tanto e
sofremos. Devemos nos conformar, Deus quis assim...
no acreditava muito no que a religio ensinava. ramos catlicos. Tinha
muitas dvidas, mas no achava ningum que me ajudasse a esclarec-las.
Tinha certeza de que a vida continuava aps a morte do corpo, mas no no
Cu ou no inferno. Tentei me conformar pensando que Eva estava bem do
outro lado.
Mas, dias depois, Dolores comeou a se sentir mal. Tudo indicava que o
parto ia ser prematuro. Apavorei-me. Sabia que com o tempo de cinco para
seis meses, se o nen nascesse, iria morrer. Marita, que cuidava dela, me
chamou e disse baixinho:
- Loureno, Dolores passa mal. no sei bem o que ela tem, parece que no
 s o parto prematuro.
l 16

- Acha que  grave? - indaguei preocupado. - Mas ela j teve cinco
filhos!
- Complicaes podem ocorrer em qualquer parto. Ela no est bem.
Viajava conosco um mdico, um senhor de quase
40 anos. Morava no Brasil, fora visitar parentes na Espanha. Fui at ele
e pedi para assistir minha esposa.
- Cobro - disse ele,  tanto...
A quantia era alta, mais da metade do meu dinheiro. Mas paguei e ele foi
para perto dela. O mdico esforou-se para ajud-la, creio que fez o
melhor que podia. Porm minha Dolores desencarnou.
Chorei desesperado, senti morrer um pedao de mim. Amava-a profundamente.
Marita aproximou-se de mim.
- Loureno, reaja, voc tem quatro filhos para criar!
- Sei, Marita - respondi -,  por isso que no morro junto. Agora tenho
que ser pai e me deles.
Embrulharam o corpo dela num lenol branco e fomos para o convs, v-lo
ser jogado ao mar. Meu filho Jos Maria agarrou-se em minhas pernas e
perguntou inocentemente:
- E o nen?
- Morreu junto - respondi desanimado.
- Os dois vo subir ao cu?
- Vo!
- Que pena mame no ter nos levado. Seria bem interessante subir ao cu.
Ser que eles criaram asas? Ou outros que morreram vieram busc-los?
no respondi, no sabia o que dizer. Mas desejei ardentemente que Dolores
no fosse para o cu e que ficasse conosco, nem que fosse em esprito.
Ento a senti perto de mim e a ouvi. Foram palavras sussurradas ao meu
ouvido.
"Meu esposo, amo-o tambm. Devo partir, deixeme ir.  s uma despedida!
Nos reencontraremos! Tenha f e nimo! Cuide dos nossos filhos!"
O barulho do corpo caindo na gua ficou para sempre na minha mente.
Fiquei aptico. Conversava s o
17

essencial, mas me esforava junto dos meus filhos, tentava agrad-los.
Sofri muito, mas por amor a eles, ainda pequenos, resolvi lutar, tentar
superar a falta que a minha companheira me fazia. Amncio sentiu-se
responsvel.
- Ah, Loureno, se soubesse no teria nem vindo e nem convidado vocs.
Que tristeza! Pior que nem dinheiro temos para voltar. Temos que ficar no
Brasil pelo menos at conseguir ajuntar dinheiro para pagar nosso
retorno.
- Voltar? Que adianta? - respondi.no ser a mesma coisa. Que farei na
Espanha sem Eva e Dolores?  melhor ficarmos no Brasil e nos ajeitarmos
do melhor modo possvel.
Foi uma viagem triste. s vezes revoltava-me e indagava o porqu de
tantos acontecimentos tristes. Pensava aflito: "Ser que se tivssemos
ficado na Espanha Eva e Dolores teriam morrido?" Sentia-me culpado e
Amncio tambm. no queria responsabiliz-lo, ele s nos convidou,
resolvi no reclamar mais e passei a ficar cada vez mais calado.
Viajava conosco um senhor alemo que lia muito a Bblia, tentou me
consolar, s que ele falava muito mal o espanhol e, como ns, estava
tentando aprender o portugus. no nos entendamos, mas ele orava por ns
e sentia-me melhor. Foi ele, sua atitude bondosa, que me fez pegar a
Bblia de Dolores e ler, hbito que adquiri e passei ento a ler quase
que diariamente e tentar entender o que lia. Isso me foi de grande
consolo e minha revolta foi amenizando at que acabou. Entendia que
necessitava me esforar, viver e lutar pelos meus filhos. Olhava-os, eram
lindos, e eles me olhavam como que pedindo ajuda, proteo, agora s
tinham a mim.
- Amo-os - dizia abraando-os. - Tudo farei para que vocs sejam felizes.
Munca mais vou amar outra mulher, amarei sempre Dolores e no vou lhes
dar madrasta. Viverei por vocs e para vocs.
Presenciamos duas tempestades, mas no foram fortes e a viagem prosseguiu
montona.
Um dia, um navio emparelhou conosco. O comandante nos explicou:  um
navio negreiro. Traz negros da frica para as colnias.
- Trfico? - indagou um passageiro.
O comandante no respondeu, estava preocupado. Um bote com trs
tripulantes se aproximou. Logo os trs subiram ao navio e foram conversar
em voz baixa com o comandante. Porm deu para entender que estavam com
problemas.
- Dr. Antero, por favor... - disse o comandante.
O mdico os escutou, relutou, mas acabou indo com eles ao outro navio.
Ficamos parados esperando. Duas horas depois, o mdico retornou
preocupado e foi se limpar, e nosso navio seguiu viagem. Ficamos sabendo
que havia uma peste, uma doena epidmica no navio negreiro. Muitos
negros e at tripulantes haviam morrido e muitos outros estavam enfermos.
O mdico no pde fazer nada, no havia remdios. Amncio comentou
triste:
- Loureno, tenho que lhe pedir perdo. Aventureime nesta viagem e no
deveria t-lo incentivado. Se soubesse...
- Deixe este 'se' - pediu Marita. - Sempre colocamos o 'se' nas nossas
amarguras e arrependimentos. Quando resolvemos vir, no sabamos o que
poderia acontecer. no se sabe o futuro, e se tivssemos ficado, iramos
com certeza nos indagar: "E se tivssemos ido? Estaramos melhor?" Viemos
e pronto!
- Que terra escolhemos para morar! - exclamou Amncio amargurado. - Lugar
onde tem escravos, umas pessoas escravizando outras! Escravos por serem
negros! E ainda vo l nas terras deles e os prendem. no se amargure
tanto - pedi. Vamos confiar! Tudo que acontece  por vontade de Deus e
Ele deve ter motivos que desconhecemos. Marita tem razo. Tenho pensado
muito e no vejo outra maneira de agir. Devemos ter esperanas e tentar
levar adiante nossos planos. S que no d para comprar nada. Mas
arrumaremos empregos. Talvez um dia conseguiremos retornar  Espanha.
Quero dizer a voc, meu primo, que viemos porque quisemos. Dolores e eu
decidimos e vocs no devem se sentir

culpados. Nossa amizade deve ser mais forte que antes. Agora somos um
pelo outro e devemos ficar unidos e sem culpa. Foi Dolores que morreu,
mas poderia ter sido Marita ou qualquer um de ns. Quanto aos negros,
ser melhor nos acostumarmos, iremos conviver com a escravido e devemos
nos adaptar aos costumes da ptria que nos acolher.
- A escravido me entristece - disse Marita. - Ser que nas colnias no
existem pessoas que lamentem isso?
- Devem existir - falou Amncio -, porm devem ter interesses maiores que
os fazem calar. Os negros so mode-obra barata, e o interesse financeiro
sempre  muito forte.
- Sou contra a escravido - disse -, espero no me envolver com esse
fato.
- Dizem horrores sobre o sofrimento dos negros falou Marita. - E deu para
ver muito bem o que eles passam. O mdico disse que eles viajam piores
que animais. Coitados!
Suspirei. Achei que havamos feito uma escolha ruim. no deveramos ter
mudado. L na Espanha no seria pior do que o que estvamos passando e do
que certamente ainda passaramos aqui. no falei nada. Fizemos a escolha
e teramos que nos adaptar a ela.
Aproximamo-nos das terras brasileiras e um dia, logo pela manh,
avistamos a costa do Rio de Janeiro. Ficamos maravilhados.
- Que lugar maravilhoso! - exclamou Marita. - Lindo assim, s pode ser
abenoado!
Cansados da viagem, olhamos esperanosos a bonita paisagem.

Capttulo 2
Lourdinha
Achamos bom pisar em terra firme! Admiramos tudo. O Rio de Janeiro era
mesmo
bonito. Orientados pelo comandante, fomos a uma estalagem de uma senhora
lusitana, Pousada da Portuguesa, que nos recebeu muito bem.
- Como tudo  diferente da Espanha! - exclamou Marita. - no d para
explicar aos nossos patrcios por carta. Acho que no sei descrever o que
vejo.
Concordamos com ela. Todos ns estvamos gostando.
- Que mistura de raas! - falou, admirado, Amncio.
- Em um lugar com tantas diversidades, no pode haver racismo,
preconceito. Ou certamente no haver no futuro.
As crianas estavam eufricas, esqueci minhas tristezas e participei com
elas da alegria de tomar uma refeio bem-feita, com alimentos frescos.
Logo depois, Amncio e eu samos  procura de trabalho. Fomos ao mercado
onde vendiam escravos, para entrar em contato com fazendeiros. no foi
agradvel ver seres humanos serem vendidos como animais, mas tentamos no
prestar ateno nesse fato que nos chocava, fomos ali atrs de trabalho.
Dias depois arrumamos emprego como capatazes, por entendermos de
lavouras. Fomos para fazendas diferentes, porm prximas entre si e
tambm da cidade do Rio de Janeiro.
Gastamos todo nosso dinheiro com a estalagem e para comprar objetos de
casa e roupas para usar no clima quente. Fomos esperanosos. Nossos
patres nos mandaram buscar de carroa. A fazenda em que Amncio iria
morar ficava mais perto da cidade. Despedimo-nos, as crianas choraram,
mas prometemos que de 15 em 15 dias nos visitaramos.
- Fiquem com Deus! - disse Marita. - Obedeam a seu pai e o ajudem.
- Adeus, meus primos! - disse Maria Imaculada. Para vocs que tm me
ser mais fcil.
Olhei-a triste, sabia que tinha razo, mas faria de tudo para facilitar a
vida deles. Abracei-os, seguimos viagem. Agora ramos somente eu e os
meus filhos, e fiquei com o corao apertado. Jos Maria me olhou
tentando sorrir e disse:
- Coragem papai! Ajudo o senhor!
Gostamos da fazenda. Era um lugar bonito. A casa que nos foi dada para
morar era pequena, mas nova e confortvel. Acomodamo-nos do melhor modo
possvel. Organizei as tarefas de casa. Levantava de madrugada e deixava
o almoo pronto. Jos Maria, meu filho mais velho, me ajudava a tomar
conta dos menores e tambm nos servios de casa.
Eles fizeram amizade com as crianas da fazenda e iam muitas vezes tomar
as refeies na senzala, junto com as crianas negras.
Gostei do meu trabalho, tinha que repartir o servio entre os escravos,
organizar horrios e tambm cuidar dos cavalos.
Ali os negros eram bem tratados e os castigos, escassos. Eu podia
castigar, mas me limitei s em chamar a ateno. Quem castigava era o
feitor, mas s depois de muitas advertncias.
Tnhamos folga aos domingos. Pela fazenda passava um rio de pesca farta,
muito bonito e com guas limpas, onde pescvamos nesses dias.
Aproveitava tambm os domingos para limpar a casa, lavar as roupas e
ficar com as crianas. Acostumamos logo com a vida na fazenda e
facilmente aprendemos o idioma: as crianas menores j falavam sem
sotaque. E, como prometemos, uma vez por ms amos  casa de Amncio e
eles tambm nos visitavam. Quando eles vinham, Marita fazia o almoo, ela
cozinhava bem, e as crianas adoravam rever os primos e brincavam o dia
todo. Tambm era agradvel ir  casa deles. Conversvamos muito,
relembrvamos o passado, a Espanha. Tnhamos poucas notcias dos nossos
parentes, escrevamos, mas as cartas demoravam e aos poucos foram
rareando.
Tinha muitas saudades de Dolores, sentia a falta da companheira, da amiga
que sempre me motivava. As crianas tambm sentiam a falta da me. Sempre
as escutava dizer:
- Se mame estivesse aqui...
Evitava falar dela com os meninos, mas desabafava com Amncio e Marita,
que me escutavam com carinho. Marita sempre me confortava:
- Loureno, voc tem se sado bem.  um pai maravilhoso! As crianas o
adoram. no desanime nunca!
- s vezes me entristeo em pensar o que poder acontecer com eles se eu
morrer!
- no diga isso! - disse Amncio. - Voc no ir morrer deixando-os
pequenos. Mas tem a ns como temos a voc, um contando com o outro nas
dificuldades.
Logo que vim para a fazenda, vi uma negra, Lourdes, a Lourdinha, que
trabalhava lavando as roupas da casagrande. no gostei dela, antipatizei
com ela sem saber o porqu. Embora no tendo motivos para isso, passei a
evitla. Ela era faceira, trabalhadeira e conversava muito. Tinha por
companheiro Z e era me de dois filhos. Um dia, meu patro me chamou:
- Loureno, o Z est sumido. Desapareceu desde ontem. Procurei-o e no
encontrei.
- Ser que fugiu? - indaguei.
- no sei, h tempo no me foge um escravo. Mas, se tratando de negros,
tudo  possvel. Investigue!
Sa  procura do Z. Mingum o vira nem queria falar. Ento fui at
Lourdinha.
- Onde est seu marido? - indaguei autoritrio. Ela, porm, no se
intimidou, me enfrentou com o
olhar e respondeu altiva: no sei, no  o senhor quem o est procurando?
No meu bolso ele no est! Negra insolente!
-" -    Armei a no para lhe dar um tapa, uma escrava
que nos escutava interferiu:
- no lhe bata, sr. Loureno! Ela est nervosa com o sumio do marido. 
que ele anda se engraando com uma negrinha da fazenda ao lado. Lourdinha
acha que ele foi procur-la ontem  noite e por l ficou com a sirigaita.
Desarmei a no e fiz algumas perguntas que a velha escrava respondeu,
Lourdinha ficou quieta. De posse das informaes, fui para a fazenda
vizinha. O Z no tinha aparecido por l e a escrava por quem ele parecia
estar enamorado no o vira e tambm estava preocupada com o sumio dele.
Voltei com raiva. Primeiro fui saber se havia alguma notcia do fugitivo,
mas ele continuava desaparecido. Passei em minha casa, j passava da hora
do almoo. Maria Imaculada tinha se queimado. Foi esquentar a comida e se
queimou com a panela, e Joaquim havia batido em Laurita. Fiquei mais
nervoso ainda. Parecia que tudo dava errado. Cuidei do ferimento de minha
filhinha, organizei a casa e sa irritado. Fui  procura novamente de
Lourdinha.
- no encontrei seu marido - disse autoritrio. - Ele s pode ter fugido!
E voc deve saber para onde. Espertinha, me deu uma pista falsa. Ele
nunca foi  outra fazenda.
- Nunca foi? - indagou. - Ento o Z mentia. Ah, me disse que sempre ia
l.
- Quero saber onde ele est!  melhor que me diga logo a verdade.
- no sei!
- Sabe! E vai me dizer! - falei com raiva.
- no sei! no sei! - gritou ela nervosa. - E se soubesse no lhe diria,
iria falar ao 'meu senhor'.    .         :
- Escrava boba! Que pensa que ?
- um ser humano!
- Insolente! Ou me diz onde est o Z ou lhe castigo.
 .,;      - no sei onde o Z est - falou ela assustada.
- no fao a menor idia. Ele fugiu e voc deve estar se preparando para
ir se encontrar com ele. Me fez perder tempo falando que ele podia estar
na fazenda vizinha. vou castig-la!
Peguei-a pelo brao e arrastei-a. Suas companheiras imploraram:
- Senhor Loureno, no faa isso! Ela no sabe mesmo! no a castigue!
Ela, porm, no disse nada, mas desafiou-me com seu olhar. Nervoso,
amarrei-a no tronco, peguei o chicote e bati com fora. Ela s gemeu
baixinho. Aps algumas chicotadas, parei. Meus pensamentos eram confusos:
"Por que fao isso? Meu Deus, como posso estar batendo nesta mulher?
Tenho raiva dela. Ela  culpada! Claro que ! Sabe onde o marido est e
no quer dizer. Ir aprender a no desafiar um branco. Branco? no somos
todos iguais?"
Cheguei perto dela e perguntei nervoso:
- Lourdinha, onde est o Z?
Ela no me respondeu, esfrava-se para no gemer, Continuou com a cabea
baixa e nem me olhou. Estava com as costas todas ensangentadas. 
-Ficar a at que me diga - falei.
Quando amarrei Lourdinha no tronco, as companheiras que viram e ouviram
nossa conversa correram e foram avisar o patro. Este veio ver o que
estava acontecendo. Ao ver Lourdinha, ordenou s escravas que foram
cham-lo:
- Tirem-na imediatamente do tronco e cuidem dela! E voc, Loureno, venha
comigo!
Acompanhei-o aborrecido at a sala da casa-grande.
- Por que bateu em Lourdinha? - indagou-me aborrecido.
- O senhor me mandou procurar o Z - respondi, tentando justificar-me. -
Ningum sabe dele, ela me deu uma pista falsa. Ele fugiu e Lourdinha sabe
onde ele est e no quis me dizer. Ainda foi malcriada comigo.
- no gosto de castigos injustos! Voc estava incumbido de procurar, no
de castigar. Est despedido! Aqui est seu ordenado. no trabalha mais
para mim. Mude daqui o mais rpido possvel. ....... Peguei o dinheiro e
sa depressa. Era de tarde e logo iria anoitecer. Fui para casa, estava
nervoso e perturbado. Jos Maria me indagou:
- Papai, por que o senhor veio mais cedo? Fiquei envergonhado. Embora no
estivesse
arrependido, tive vergonha de dizer o que tinha feito e menti:
- Fui despedido! Fui mandado embora porque me neguei a castigar uma
escrava. At lhe dei umas chicotadas. Como no quis bater mais, o patro
me demitiu.
- O senhor agiu certo - disse Jos Maria. - no se preocupe, trabalho no
h de faltar.
- Amanh cedo vamos para casa de Amncio. Emprestaram-me a carroa, um
escravo ir nos levar. L verei o que fazer.
Fomos dormir cedo. Queria mudar dali o mais depressa possvel. no queria
que meus filhos escutassem os fatos como realmente aconteceram e
percebessem que eu menti ou, pior, que fui maldoso.
Acordei de madrugada e me pus a arrumar tudo. Meus filhos foram se
despedir dos amigos, das crianas escravas.
- no demorem, j estamos de partida - recomendei. Quando voltaram, Maria
Imaculada indagou:
- Disseram que o senhor bateu em Lourdinha.  verdade?
- E foi por no bater mais que vamos embora. Ele bateu, mas foi obrigado!
- disse Jos Maria me defendendo.
Arrumei todas as nossas coisas na carroa o mais depressa que pude e
partimos.
Chegamos  casa de Amncio, ele estava trabalhando, contei a minha verso
a Marita. Ela nos acolheu com carinho. Quando Amncio veio almoar,
contamos o que aconteceu e meu primo tentou me animar:
- Empregados por aqui tm que obedecer! Talvez tenha sido melhor assim!
vou conversar com meu patro, pedirei para que lhe arrume emprego.
companheiro nosso, um empregado, parece que ir se mudar, vai embora. E
voc poder ficar no lugar dele. Morar na mesma fazenda vai ser bem
melhor. Marita poder olhar seus filhos. Esperanoso, aguardei E
Lourdinha? Embora no estivesse interessado, soube notcias dela.
Ela estava mal quando a desamarraram do tronco. Grvida de quase quatro
meses, comeou a ter fortes dores abortivas. As amigas que a pegaram
levaram-na para um cmodo na senzala que era usado pelos doentes.
Trataram na com chs, que somente amenizaram as dores. Lourdinha abortou.
Ficou dias sob os cuidados das negras, mas, como era forte e sadia,
recuperou-se logo.
Cinco dias depois, acharam o corpo do Z no rio. Apareceu boiando e j em
decomposio. Deduziram, e foi o que aconteceu, que fora pescar e caiu no
rio e, como no sabia nadar, afogou-se.
Mesmo sabendo disso, no senti nenhum arrependimento. Pensava nela com
raiva e sofria com isso. Tinha conscincia do injusto castigo que a fez
sofrer, dos ferimentos das chicotadas, do aborto e do fato de ter perdido
o seu companheiro. Mas, no entendendo o porqu, tinha raiva dela e
achava que tudo que lhe aconteceu foi merecido.
Amncio me arrumou emprego, passei a morar perto deles, isso me facilitou
muito. Marita passou a tomar conta dos meus filhos.
A fazenda em que trabalhei era vizinha da que eu estava agora e houve
comentrios sobre o fato. Amncio e Marita nada me disseram, preferiram
acreditar em mim, porque me conheciam e julgavam-me incapaz de ter feito
uma maldade. Calei-me envergonhado. Nunca, enquanto estava encarnado,
comentei o assunto, mas tambm nunca o esqueci.
Lourdinha continuou com seu trabalho aps ter se recuperado. Preferiu
esquecer e, quando a indagavam sobre o fato, respondia sem rancor:
- Ser escravo  assim mesmo, castigado com ou sem motivo.
Anos depois, seu dono, o senhor, que tinha a fazenda, enviuvou. Ele
repartiu a fazenda com os filhos, ficou com a sede e as terras ao redor.
Repartiu tambm os
27

escravos, mas sem prejudicar ningum. Os escravos puderam escolher para
onde ir, isso para no separar as famlias. Lourdinha com os filhos
ficaram com o senhor e ela foi servir a casa-grande, onde tempo depois
passou a ser amsia dele. Ele a libertou e tambm seus dois filhos, e
ela.teve mais dois filhos que herdaram aquele pedao de terra..
Este senhor foi bom para ela, mas Lourdinha retribuiu. Ele ficou doente e
ela cuidou dele com carinho.
Lourdinha desencarnou velha, entre filhos, netos e bisnetos. Contava a
histria do seu castigo, quando esteve imerecidamente no tronco. Ela me
perdoou. O fato ficou s nas suas lembranas, um caso para contar e nossa
vida ficou mais fcil por estarmos prximos dos nossos familiares e
amigos, piorou na questo da moradia: a casa era desconfortvel, tnhamos
que buscar gua longe. Jos Maria passou a trabalhar muito para me
ajudar.
Marita tambm labutava muito, tomvamos as refeies em sua casa,
ajudvamos nas despesas. Nessa fazenda tinha muito mais coisas para
fazer, Amncio e eu trabalhvamos muito e continuvamos a ser grandes
amigos.
Fazia um ano que estvamos ali e dois anos no Brasil. Os amigos
aconselharam-me a casar novamente. Recusava e dizia:
- no. Prometi aos meus filhos no lhes dar madrasta. Vivemos bem assim e
tenho medo de casar e piorar. Amo meus filhos!
As crianas se sentiam seguras ao ouvir isso. Estavam crescendo fortes e
sadias. Maria Imaculada j cozinhava com a ajuda de Marita. Achava que
meus filhos estavam trabalhando novos demais, mas a vida no era fcil.
Porm sonhava em proporcionar uma existncia melhor para eles.
Um dia, estvamos Amncio e eu vendo uma plantao, quando uma cobra o
picou. Matei-a e vimos que era venenosa. Fiz um curativo como sabia e o
levei para sua casa.
- Loureno - disse ele preocupado -, no estou bem. Ser que me safo
desta? Era peonhenta aquela maldita!
29

- Calma, Amncio, no devemos nos apavorar. Voc deve estar sentindo o
efeito do veneno, mas no ser mortal.
Senti que Amncio estava com medo e eu tambm, porm tentei sorrir e lhe
dar nimo. Queria acreditar que ele sobreviveria.
Marita e as crianas assustaram-se com a nossa chegada. Acomodei-o no
leito e corri para a senzala. Busquei uma negra que entendia de ervas e
fazia benzeduras e remdios. Ela o examinou, chamou Marita e a mim para
que nos afastssemos do leito e cochichou:
- Ele est morrendo! no posso fazer nada. Amncio estava inquieto no
leito, suava muito e tinha
dores; chamou-me, sua voz estava fraca, e falou com dificuldades:
- Loureno, meu primo, meu amigo! Estou morrendo!
- Claro que no! - respondi. - Voc  forte e logo estar bem.
- no precisa mentir. A cobra era venenosa! Preocupo-me com Marita e as
crianas. Tome conta deles, Loureno. Por favor! S temos voc. Case com
Marita. Um ajudar o outro. Prometa-me!
Olhei-o comovido. Que situao difcil. Ele me olhava implorando,
apertando minha mo. Respondi emocionado, contendo-me para no chorar:
- Prometo, Amncio, cuidar deles! Prometo! Tentou sorrir, mas seu
semblante era de dor. Ficou
mais tranqilo. Marita ficou ao seu lado, desesperada. Depois de uma
agonia lenta, com a negra benzedeira cuidando dele, Amncio desencarnou.
Foi muito triste, as crianas choraram e Marita tentava consol-las.
Enterramo-lo junto com os escravos, no cemitrio da fazenda. Era costume
em algumas fazendas sepultar os empregados e escravos ao lado ou aos
fundos da capela; apenas os senhores iam para a cidade ser enterrados em
jazigos. J em outras, todos os mortos eram levados para o cemitrio da
cidade mais prxima. Marita estava preocupada. 30 Loureno, acho que o
patro vai querer a casa para que outro empregado a ocupe. Se pelo menos
pudesse trabalhar no lugar de Amncio...
- Marita, no se preocupe, vamos achar uma soluo.
- Ser que o dinheiro que tenho daria para voltar com as crianas para a
Espanha?
- E fazer o que l? - indaguei. - Viver da caridade dos parentes, to
pobres quanto ns? Vai ficar, ajudo voc. Juntos acharemos um modo de
resolver isso. O dinheiro que recebo dar para nos sustentar.
Quinze dias depois que Amncio havia morrido, um outro empregado da
fazenda tentou entrar na casa de Marita  noite. As crianas se
apavoraram. Tinha que tomar uma deciso, a qualquer momento o
proprietrio pediria para ela se mudar. Estava em casa pensativo e as
crianas me rodeavam.
- Papai - disse Jos Maria -, est pensando nos nossos primos?
- Sim, filho, estou - respondi.
- Por que o senhor no casa com Marita? - perguntou Maria Imaculada. -
no prometeu a Amncio?
- Prometi cuidar deles. Mas antes prometi a vocs no lhes dar madrasta.
- Ora - disse Maria Imaculada sorrindo -, Marita no ser madrasta.
Gostamos muito dela, ela ser como me.
- Papai - disse Jos Maria -, Maria Imaculada tem razo. O senhor nos
prometeu, mas queremos livrlo da promessa. Ns todos queremos que o
senhor se case com ela.
Fui conversar com Marita naquele dia mesmo.
- Marita, estou preocupado com vocs.
- Loureno, no quero que se sinta obrigado. Amncio estava agonizando
quando fez voc prometer, mas no quero nada que lhe seja sacrifcio.
Tenho pensado muito, talvez mude para a cidade.
- Marita, quero-lhe bem, como tambm aos seus filhos, que sinto como se
fossem meus. no vou deixar voc
se aventurar por a sozinha com as crianas. Vou me mudar para c.
Moraremos juntos, dormiremos em quartos separados.
- Obrigada, Loureno, no quero casar de novo. Aceito sua ajuda.
- Ajudaremo-nos mutuamente, Marita. Vocs, voc sempre me ajudou muito.
Conversei com o patro pedindo autorizao para mudar, ele sentiu-se
aliviado.
- Est agindo certo, Loureno, no sabia o que fazer com a viva. Case-se
e seja feliz!
Mudamos no outro dia, as crianas gostaram e se acomodaram do melhor modo
possvel. O proprietrio permitiu que eu aumentasse a casa, e construmos
outros cmodos. As crianas davam-se bem, brigavam s vezes, mas estavam
felizes juntas. Os meninos mais velhos ajudavam-me e as meninas
colaboravam com Marita.
Depois de seis meses, Marita e eu conversamos e decidimos viver como
marido e mulher. no amei Marita, mas lhe queria bem e combinvamos
muito. Ela tambm no me amava, mas me tratava com carinho. Porm um elo
muito forte nos unia, o amor das crianas. E nunca existiu os meus ou os
seus, foram sempre os nossos filhos.
Tivemos uma filha e Marita estava grvida novamente quando aconteceu um
incidente.
Estava indo para a lavoura quando vi um negro correndo e o senhor da
fazenda vizinha seguindo-o a cavalo. O negro, cansado, parou encostado
numa grande pedra, o fazendeiro apeou do cavalo e o enfrentou:
- Agora, negro imundo, lhe darei a lio que merece! Caminhou para perto
do escravo com um chicote
na mo. O negro lhe deu uma pezada, um golpe de capoeira que arrancou o
chicote das mos do fazendeiro, que caiu longe. O escravo tirou da
cintura uma faca e desafiou:
- Vem me dar a lio agora, branco animal!
O fazendeiro assustou-se, no tinha como correr e tentou conversar:
- Tio, veja o que voc faz! Se me matar ou ferir ser pior para voc.
- Est com medo? 32 Apeei do cavalo e me aproximei sem fazer barulho, e,
quando o negro ia atacar o fazendeiro, interferi, minha inteno era s
desarm-lo, mas eu e o escravo lutamos, rolando pelo cho. no estava
armado, mas no me intimidei, tentei no ser atingido por ele. Porm o
negro era forte e levei alguns murros que me tontearam. O escravo ia me
matar; com inteno de me defender e querendo sobreviver, esforcei-me
para segurar seu brao para a faca no me atingir. Acabei empurrando-o e
ele caiu em cima de sua arma, ferindo mortalmente o abdmen. Levantei-me
e olhei-o assustado, tremia, ele sangrava, j respirando com dificuldade.
Escutei um trote de cavalo, a me lembrei do fazendeiro e o olhei. Ele
havia, assim que interferi, montado no seu cavalo e se afastado, vendo
que o escravo estava ferido, voltou. Falei com medo:
- no queria mat-lo, foi um acidente. Serei preso? Ele riu.
- Preso por matar um negro? De jeito nenhum. Voc me salvou a vida. Fui
imprudente em perseguir este fujo sozinho. no sabia que ele estava
armado com uma faca. Voc me prestou um favor. Deixe o negro a, vou
mandar buscar o cadver e, quanto a voc, receba isto. Sei ser grato!
Tirou de sua bolsa uma grande quantia de dinheiro e me deu. Foi embora
deixando ali o negro agonizando. Corri tentando acudi-lo.
- Perdoe-me! Perdoe-me! - disse.
Ele me olhou, estava sangrando muito e disse com dificuldade:
- Voc lutou do lado errado. Eu ia mat-lo. Esquece...
Morreu nos meus braos. Sujo do sangue dele e de meus ferimentos, voltei
para casa e chorei muito. Nunca pensei que pudesse matar algum. Marita
fez os curativos e me consolou:
- Voc agiu certo. Foi defender aquele que julgou indefeso. Lutou com
ele, o que vale  a inteno e voc no queria mat-lo, s desarm-lo.
Ele caiu em cima de sua prpria arma. - - 
33

Meu patro conversou comigo.
- Este vizinho e eu j tivemos muitas desavenas, mas ele mandou me
agradecer por ter sido salvo por um empregado meu. Gostei disso, a
inimizade dele no me  interessante. Por dias fiquei angustiado, me
esforava para no pensar no assunto, mas as cenas vinham  minha mente.
Por muitas vezes acordava assustado, sonhava com o acontecido. Fiz o
possvel para me livrar do remorso, consegui, mas enquanto estive
encarnado, lembrava com tristeza deste fato. O escravo no teve dio de
mim e nem me julgou culpado. Perdoou-me. Mas sofri por ter sido envolvido
nesse incidente que resultou na morte fsica de um ser humano.
Marita teve o nosso filho dias depois, e coloquei o nome do escravo
morto, Abelino.
Houve comentrios nos primeiros dias, depois j no se falava mais nisso,
pensei que tudo estivesse esquecido e que a rotina tivesse voltado. Ento
recebi uma visita, um capataz da fazenda vizinha, do senhor que eu havia
salvado da ira do escravo, veio falar comigo.
- Meu patro me mandou aqui para convid-lo a trabalhar para ele. Voc
com a famlia iro morar numa casa mais confortvel e ter melhor
ordenado.
Senti um aperto no corao. Todos por ali conheciam a fama desse
fazendeiro. Ele era arrogante, autoritrio e mau. Castigava de forma
cruel seus escravos e no respeitava mulheres bonitas. no podia aceitar
e tentei recusar educadamente.
- Agradeo muito o convite, mas no posso aceitar. Peo-lhes desculpas,
por favor, diga ao seu senhor que estamos acostumados aqui e que no
queremos mudar.
- O patro no vai gostar da recusa...
O capataz saiu e ficamos, Marita e eu, apreensivos. E no gostou mesmo.
No outro dia meu patro veio me procurar.
- Loureno, meu vizinho exigiu que o mande embora. Disse que recebeu uma
desfeita sua. no quero
34

brigas, tenho feito de tudo para evitar discrdias com ele. Ontem  noite
ele exigiu que o despedisse. no acho justo, mas vou ter que demiti-lo.
Porm vou lhe dar uma boa quantia de dinheiro. E se voc quiser emprego,
ele lhe dar. Gosta de voc.
- Que modo estranho de gostar, de ser grato - respondi. - Gosto daqui e
no queria mudar, por isso no aceitei a proposta dele, no quis fazer
desfeita nenhuma. S que no quero trabalhar para ele, vou embora deste
lugar.
- Resolva como achar melhor. no precisa mudar logo, faa-o quando puder.
Fui para casa e contei a Marita.
- Temos um bom dinheiro - disse ela me animando.
- Vamos para a cidade, para o Rio de Janeiro. L poderemos pr os meninos
para estudar.
- Voc tem razo! Vamos tentar a vida em outro lugar. vou amanh para o
Rio e voc e as crianas ficam aqui. Verei um lugar para nos
estabelecermos e volto para buscar vocs.
No outro dia fui no cavalo que o fazendeiro me emprestou, como tambm me
emprestaria as carroas para a mudana.
A cidade do Rio de Janeiro me fascinava, era bonita, com pessoas alegres.
Fiquei na Pousada da Portuguesa, no mesmo local em que ficamos anos
antes. Estava disposto a procurar j no outro dia algo que pudesse fazer,
mas foi ali mesmo que achei.
Esta portuguesa j estava cansada e julgava-se idosa para tanto trabalho,
tinha somente um filho, seus outros dois haviam falecido. Seu filho
estava de partida para a provncia das Minas Gerais e queria lev-la com
ele. Ela estava em dvida, se fosse, teria que vender a pousada. Achei
que seria bom ter a estalagem. Conversei com o filho dela:
- Gostaria de comprar a pousada e de me instalar aqui com minha famlia.
Mas no tenho todo o dinheiro para compr-la.
Conversamos por horas e acabamos fazendo negcio. Daria a ele uma
quantia, que era trs quartos do
35

meu dinheiro, e depois de um ano e trs meses ele viria ao Rio e eu lhe
pagaria o restante.
Foi para ambas as partes um bom negcio. Voltei feliz logo no outro dia
para buscar minha famlia.
Alegres, comeamos a nos preparar para a viagem.
Nossa famlia era numerosa e nossos filhos se davam bem. Os mais velhos
de Marita me chamavam pelo nome, como Jos Maria e Joaquim chamavam minha
esposa de Marita, os menores nos chamavam de pai e me. A segunda filha
de Marita, Leonor, era muito boa menina, ela e Jos Maria se davam muito
bem, estavam sempre juntos. Nessa poca ele tinha 15 e ela, 13 anos.
Estvamos eufricos, todos ajudavam, falando ao mesmo tempo. Foi do
agrado de todos a mudana para o Rio de Janeiro. J tnhamos nos
despedido de todos os amigos, faltavam os ltimos preparos, quando Leonor
pediu a Marita:
- Me, posso ir  beira do riacho? Volto logo, s vou me despedir do meu
lugar predileto.
- V, mas volte rpido - disse Marita. - Vamos partir logo.
Ela saiu correndo. O riacho era perto, um lugar bonito, de guas claras e
rasas e com muitas pedras. As crianas gostavam muito de brincar l.
Leonor demorou e j estvamos prontos para partir. Jos Maria foi atrs
dela. Alguns minutos se passaram e ele voltou aos gritos.
- Pai! Leonor est cada e tem sangue na cabea! Acudam!
Corri desesperado e a encontrei morta. Leonor escorregou, bateu a cabea
e desencarnou. Como ficamos tristes! Choramos desolados. Velamo-la na
sala vazia. Tirei das carroas s o necessrio. Seu sepultamento foi no
outro dia cedo, ao lado de Amncio. Foi doloroso cobri-la de terra, ela
parecia dormir, seu semblante estava tranqilo, estava bonita como
sempre.
Enterramo-la e partimos.
no foi uma viagem alegre como sonhvamos. Marita estava abatida, se
esforava para superar, minha companheira era forte, tantos sofrimentos e
permanecia
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tranqila, conhecendo-a sabia que sofria muito. Ela abraou o nen, Maria
Imaculada cuidou da outra pequena. Nunca iramos esquecer Leonor, ela era
alegre, bondosa, cativava a todos. no percebi que Jos Maria sofria
demasiado, mais do que qualquer um de ns. no notamos, talvez, porque
ele, no querendo aumentar nosso sofrimento, fechou-se e procurava, como
sempre, ser til aos irmos menores.
Ao passarmos pela porteira da fazenda, Maria Imaculada disse tristemente:
- Quantas perdas tivemos em curto espao de tempo, desde que samos da
Espanha para estas terras novas. Queira Deus que no tenhamos mais
nenhuma e que possamos ser felizes no Rio de Janeiro. Adeus, Leonor!
Jos, filho de Marita, perguntou inocentemente:
- Maria Imaculada, Leonor escutou seu adeus? no sei, espero que sim, mas
quero que ela esteja no Cu com mame e seu pai.
- Tambm quero ir para o Cu! - disse Jos. Marita interferiu:
" - Vamos para o Rio de Janeiro! Falemos do mar, das praias. Vamos
conversar sobre coisas alegres.
Comearam a conversar sem entusiasmo, mas o assunto terminou logo.
Fizemos a viagem calados. Mas estvamos esperanosos. Resolvi deixar ali
as lembranas ruins. Queria esquecer a morte daquele escravo, o incidente
desagradvel e tudo que nos magoou.
Esforcei-me para tentar agradar s crianas. Ao cair da tarde estvamos
no Rio de Janeiro.
37Acostumamo-nos a trabalhar no pesado, no estranhamos.
- Como est sujo! - exclamou Marita. - Tudo aqui necessita de uma boa
limpeza.
E foi o que fizemos, limpamos, consertamos e duas semanas depois a
estalagem parecia outra. Era uma casa grande com vrios quartos, a
cozinha era enorme. Havia dos dois lados da frente da casa canteiros onde
plantamos flores, o quintal tambm era grande e fizemos uma horta em que
plantamos vrios tipos de verduras. Logo na entrada da casa havia a
recepo e o refeitrio, com muitas mesas e cadeiras. Havia muitas
janelas grandes e a casa era arejada e fresca. Entusiasmados, fizemos
muitos planos. Repartimos o servio, cada um de ns tinha uma tarefa a
fazer. Mas sentamos a falta de Leonor e falvamos dela.
- Se Leonor estivesse aqui - dizia um de ns -, limparia tudo isso
sozinha.
- Leonor iria gostar daqui! - dizia um outro.
- Deixem Leonor em paz! - exclamou, aos gritos, Laurita.
Assustamo-nos, parei o que estava fazendo e cheguei perto dela. Laurita
estava imvel, com os olhos parados.
- Por que diz isso filha? - perguntei. - Por que fala to alto?
- Para todos escutarem que Leonor quer ficar em paz onde est! Ela no
quer que a chamemos. no
38

entendem que  doloroso para ela saber que sofremos sua falta? Leonor
est l e deve ficar.
- Est onde? - indagou Jos Maria aflito. - Onde est Leonor?
- No lugar em que deve estar... - respondeu Laurita e ps-se a chorar.
Marita a abraou e falou, ponderada como sempre:
- Laurita tem razo. Todos ns, j que nascemos, morreremos um dia.  a
vida! Deus quis levar Leonor', devemos nos conformar. Ela partiu e
devemos nos consolar e entender que ela no est mais conosco. Acalme-se,
Laurita, filhinha, acalme-se! Voltemos ao trabalho e esqueamos Leonor.
Continuamos a trabalhar e Laurita voltou ao normal, como se nada tivesse
acontecido. Procuramos no falar mais de Leonor, mas nunca a esquecemos.
O tempo se encarregou de nos fazer entender que ela no estava mais
fisicamente conosco, mas que o amor que sentamos por ela continuava
sempre vivo e forte em ns.
Marita cozinhava muito bem e logo pessoas comearam a nos procurar para
que servssemos as refeies, mesmo sem estarem hospedadas. Passamos a
servir, como tambm a vender bebidas. Deu certo. Trabalhvamos muito, mas
estvamos contentes. Quatro meses depois o empregado se despediu, no
queria trabalhar mais, foi morar com a filha. Sentimos sua falta, mas
entendemos, j estava idoso e cansado.
Como nossos freqentadores eram na maioria homens, eu e os rapazes
tomvamos conta dos fregueses e Marita e as meninas ficavam no interior
da casa, para evitar que algum mexesse com elas.
Meses se passaram, tnhamos saudade de Leonor, mas, desde aquele dia em
que Laurita gritou estranhamente, procuramos no falar muito dela.
Como os negcios iam bem, contratei um professor para dar aula aos meus
filhos. Ele ia trs vezes por semana  nossa casa, na parte da manh
ensinava os menores e de tarde, os maiores. Queria que todos, meninos e
meninas, soubessem ler e escrever. Todos os nossos filhos passaram a
estudar. Era uma despesa extra, mas Marita e eu no reclamvamos,
trabalhvamos muito mais contentes e eles retribuam, aprendiam com gosto
e estudavam bastante.
Comecei a juntar dinheiro para pagar o restante que devia ao ex-
proprietrio, queria ter toda a quantia quando ele viesse busc-la.
um dia Marita foi ao mercado e voltou acompanhada de uma negrinha que
estava com a cabea baixa, segurando uma trouxa de roupas nas mos.
- Loureno - disse Marita -, quero lhe falar.
Sa do balco e acompanhei Marita aos nossos aposentos, e minha esposa,
encabulada, torcia as mos, no sabia como comear.
- Diga Marita! - disse. - Que tem para me dizer? Quem  esta mocinha? 
escrava?
- Ela se chama Benedita...
- Quem  esta Benedita? Por favor, fale - insisti.
-  a escrava que comprei no mercado!
- Comprou?! - disse espantado. - Com que dinheiro?
- Com o que guardamos. Loureno, por favor, no fique bravo! Sei que no
gosta da escravido e nosso plano  no ter escravos. Mas...  que vi no
mercado esta menina, estava to sozinha,  to novinha, tem a idade dos
nossos filhos. Ela me comoveu. Imaginei por momentos que eu era a me
dela e que gostaria que algum bom a comprasse e cuidasse dela. Enquanto
a olhava, um senhor indecente a examinava, isso mesmo, ele a examinava
como se conferisse uma mercadoria. Senti-me horrorizada com o olhar de
cobia dele, ela chorava com medo. no resisti e a comprei. Agora vou
pegar o dinheiro e irei pagar ao mercador. Sinto pelo seu dinheiro...
Pensei por instantes. no poderia ter companheira melhor. Marita era
muito bondosa, nunca reclamava, estava sempre ao meu lado, fazia tudo
para me agradar. Era econmica, nunca exigia nada. Compreendi seus
sentimentos em relao  mocinha. Seria difcil juntar o dinheiro no
prazo, mas daria um jeito. Ela esperava minha resposta, torcendo as mos.
40 Marita, o dinheiro no  s meu,  nosso. Haveremos de dar um jeito...
- Loureno, voc no ficou bravo comigo? Que bom!
Abraou-me, abraamo-nos.
- Marita, voc  a melhor pessoa do mundo! - disse com sinceridade.
Benedita passou a ser parte da famlia. Foi bom, passou a ajudar muito
Marita.
Recebi, dois meses depois, uma correspondncia, contente, gritei por
Marita:
- Marita, veja que bom! O filho da portuguesa escreveu-me dizendo que
adiar sua viagem para c.
- Por Deus, Loureno - disse ela alegre -, teremos tempo para ajuntar o
dinheiro e at de gast-lo...
Marita calou-se e me olhou, comeou a torcer as mos. Olhei-a
desconfiado, quando ela torcia as mos era que alguma coisa acontecia.
Ficamos nos olhando em silncio, at que ela criou coragem e disse
apressada:
- Voc e os meninos esto trabalhando muito. Acho que devemos comprar um
escravo para ajud-los. Sei que no quer ter escravos, mas  que...
- Marita, explique melhor! Realmente no quero ter escravos, quando
pudermos, contratarei um empregado.
- Sabe, Loureno, Benedita  to boazinha. A me dela morreu quando ela
nasceu. Foi criada por outra escrava de sua dona. Quando sua dona morreu,
o filho levou todos os escravos para serem vendidos no mercado. Benedita
tinha um namorado, um grande amor, e foi separada dele. Ele  Bidu, est
agora morando no muito longe daqui. Estamos com muita d dela. J
pensamos muito e no encontramos outra forma de resolver a situao, pois
sabamos que tnhamos que pagar ao antigo proprietrio. Coitadinha, chora
sempre de saudades...
Alguns dos nossos filhos vieram curiosos para perto de mim quando gritei
com a carta na mo, ficaram quietos, escutando nossa conversa. Marita
calou-se e eu os olhei. Para mim, nenhum filho tinha problema ou nos dava
preocupaes. Entendi, naquele momento, que quando eles 41 tinham alguma
dificuldade era Marita que resolvia e eu nem ficava sabendo. Isso para me
poupar. Sorri e os deixei assustados. Falei comovido:
- Amo vocs! Ah, como os amo! Vocs so maravilhosos! Vamos comprar o
Bidu!
- Viva! - exclamaram as crianas.
- Papai - disse Jos Maria -, prometo trabalhar mais...
- no - respondi -, se vou comprar um escravo, ser o empregado que me
ajudar para que vocs, meus filhos, trabalhem menos. E l vai o nosso
dinheiro, se Deus nos ajudou, ajudar novamente, conseguiremos ajunt-lo
de novo antes do filho da portuguesa voltar.
- Obrigada, Loureno! - exclamou Marita com lgrimas nos olhos.
Sabendo de todos os detalhes, l fui eu atrs do dono do tal Bidu, para
compr-lo.
Gastei mais do que previra. O dono, me vendo interessado, no fez por
menos. Mas voltei para a casa com Bidu. Ele era um negro bonito, sorriso
aberto, disfaradamente me examinou com medo no olhar. no quis amarrlo
e pedi para que me acompanhasse. no ousou perguntar nada, seguiu-me
cabisbaixo, me comovi e expliquei:
- Bidu, comprei voc para satisfazer minha esposa, que tem uma escrava
que diz am-lo muito. Tenho uma estalagem e voc trabalhar conosco.
Espero no me arrepender de t-lo comprado.
- no se arrepender, senhor, sei trabalhar direitinho e aprendo rpido,
uma escrava... Quem  ela?
- Benedita!
- Benedita? - perguntou pensativo.
Parecia no recordar. Pensei: "Que paixo  essa?" Conclui que s ela, a
Benedita, que amava.
- Benedita - falei -, a rf que viveu junto com voc na casa da senhora
do sobrado.
- Ah, sim! Claro!
Sorriu descontrado, mas em seguida voltou a ficar srio. Que horror,
pensei, como deve ser ruim ser escravo. Ser vendido, passado de um dono a
outro, sem ao menos 42 ser consultado se quer ir ou no. Viver em outro
lugar, sem me conhecer, sem saber se eu era bom ou mau e nem o que ele
faria dali para frente. O coitado devia estar ansioso e temeroso. Seria
pior ou melhor que o antigo dono? Tive d, dei-lhe um tapinha nas costas
e sorri.
- Voc ir gostar da estalagem.
Ele sorriu e seu olhar se alegrou, confiante.
Ao chegarmos  casa, todos nos esperavam curiosos.
- Benedita!
- Bidu!
Correram um para os braos do outro. Pensei: " bem malandro este Bidu!"
Fiquei feliz por todos terem ficado contentes. Marita preparou o quarto
deles como se fossem casados. no me arrependi, Bidu era cativante,
esperto, trabalhador, estava sempre alegre e sorrindo. Atendia bem os
fregueses.
Para nossa alegria, o antigo proprietrio atrasou-se novamente e
conseguimos ajuntar o dinheiro bem s vsperas de sua chegada. Ele me
explicou, justificando sua demora:
- Senhor Loureno, estava de viagem marcada e minha me ficou doente.
Depois, quando tudo novamente estava acertado, foi minha esposa que
adoeceu.
- Seu dinheiro est aqui - disse feliz. Prosperamos, aumentamos a casa,
fizemos mais
quartos, a estalagem estava sempre limpa e agradvel. Ficou realmente
bonita e estava sempre lotada de hspedes. Agora nossos filhos estavam
bem vestidos e nada lhes faltava. Estudavam com gosto: os meninos foram
para um colgio pago e o professor continuou a dar aula para as meninas.
Benedita ficou grvida e Marita fez todo o enxoval, parecia que era um
neto que ia nascer. Todos esperavam o nascimento do nen. Quando Benedita
entrou no trabalho de parto, uma parteira foi chamada, s que houve
complicaes, a criana no nascia. Ficamos preocupados e fui buscar um
mdico. Ele veio, mas ao ver que ia atender uma escrava, reclamou:
- O senhor no me disse que ia atender uma negra! 43 Para mim os seres
humanos so todos iguais, o senhor no pensa assim? - perguntei.
Ele no respondeu, porm fez tudo para ajudar Benedita, mas ela morreu e
a criana, um menino, sobreviveu.
Foi uma choradeira. As crianas gostavam muito dela. Bidu ficou desolado.
- Que fao agora com o nen, sr. Loureno?
- Vamos cri-lo - respondi.
- Vamos? - disse alegre. - Posso ficar com ele?
- Claro! Imagina se Marita ir querer se desfazer desta criana.
- Juro por Deus no ter mais filhos! - exclamou Bidu. -  o primeiro e o
ltimo. Munca mais me caso.
Chamamos o nen de Marco, Marquinho, e Marita criava-o como um filho.
Realmente no queria ter escravos, ento dei liberdade para Marquinho e
Bidu. Reunimo-nos na sala e chamei Bidu.
- Bidu - disse alegre -, resolvemos no ter escravos, por isso aqui est
sua carta de alforria e a do Marquinho. So livres!
Pensamos que Bidu ia pular e gritar de alegria. Mas, quando comecei a
falar, ele pensou que amos vend-los, assustou-se, depois suspirou
aliviado, ficou quieto por instantes e disse desolado:
- Vocs no me querem mais? Que fao com Marquinho? Teremos que ir
embora?
Dei uma risada.
- Claro que no, Bidu! Tente nos tirar Marquinho ou lev-lo embora que
Marita mata voc. Vocs agora so livres, mas os queremos aqui. Quero-o
como empregado!
- Verdade? larruuu!
Pulou de contente, depois nos agradeceu chorando de alegria:
- Obrigado, patro, obrigado, patroa e patrezinhos. Serei o melhor
empregado do mundo.
E foi.
Para no sobrecarregar Marita, contratei como empregados um casal de
meia-idade para ajud-la. 44 Marquinho crescia forte e esperto.
Loureno - disse Marita me chamando para uma
conversa a ss. Torcia as mos. - Tenho algo a lhe dizer... Diga, Marita
- falei preocupado -, seja o que for,
diga logo.
 que estou grvida - disse envergonhada.
Grvida! Que bom! Por que se envergonha?
-  que j temos filhos moos...
Ora, Marita, somos casados e no vejo o porqu
da vergonha.
- Temi aborrec-lo.
Olhei-a com carinho, ela estava sempre pensando
em mim. Abracei-a.
Fez a criana sozinha? - indaguei. 
Rimos. Foi uma festa e Deus nos presenteou com outra menina, a quem demos
o nome de Dolores.

Uma outra mudana


Prosperamos . Todos estvamos contentes por morar no Rio de Janeiro e por
trabalhar em algo nosso. Marita resolvia todos os problemas dos nossos
filhos, a nica vez, que me ps a par de um, foi sobre minha filha
Laurita.
- Loureno - disse ela -, Laurita  diferente! no sei o que tem. J pedi
a bno para ela no convento, no adiantou nada. Ela v pessoas mortas,
fala com elas. A menina sofre! Tem medo! Voc se lembra daquela vez,
quando ela gritou pedindo para no chamarmos por Leonor?
- Lembro-me bem, estranhamos muito. Mas foi s aquela vez, no foi?
- Tem acontecido sempre. Estou lhe dizendo isso porque estive no convento
e l os frades disseram que, para livr-la disso, necessita de missas e
bnos especiais que custam caro.
- Pague o dinheiro que precisar, Marita, livre nossa filha dessas
esquisitices.
Foi feito tudo o que eles nos pediram, Marita pagou caro e nada; Laurita
continuava estranha.
Os filhos moos comearam a casar, Laurita arrumou um noivo. no gostamos
dele, era mestio, sua me era ndia, era muito calado e nunca sorria,
possua um stio perto do Rio. Preocupamo-nos com esse namoro e com o
possvel casamento. Achei que ele deveria saber o que acontecia com ela.
Quando ele veio pedir para noivar, chamei-o para uma conversa particular
e contei tudo que se passava com Laurita. Estranhei, vi-o sorrir pela
primeira vez. Respondeu tranqilo:
46

- Senhor Loureno, Laurita j me disse tudo isso. Pode lhe parecer
estranho o que ocorre com ela por no entender esses fatos, mas para mim
isso  natural. Quero-a como ela  e com certeza poderei ajud-la.
Suspirei aliviado.
Meses depois se casaram e ela acompanhou o marido, toda feliz.
Jos Maria continuava solteiro, no se interessava por ningum e no foi
muita surpresa quando ele nos chamou para uma conversa. Ele estava muito
feliz:
- Papai, Marita, quero comunic-los que entrarei para o convento. Serei
padre!
no sabia se ficava alegre ou triste. Amava muito Jos Maria. s vezes
achava que ele era o meu pai, no eu o dele. Eu o respeitava, era sempre
ponderado e muito bondoso. Desconfiava que ele poderia acabar num
convento, gostava muito de ir  igreja, mas preferia v-lo casado e
criando filhos. Nessa poca Jos Maria lecionava na escola do convento,
como tambm dava aulas para muitas crianas pobres e ainda nos ajudava,
amos sentir muito sua falta, eu ia sentir, pedia lhe opinio sobre tudo.
Marita o abraou, tambm o fiz, com lgrimas nos olhos, falei gaguejando:
- Espero que voc tenha certeza do que est fazendo. Lembre-se de que
aqui  seu lar e sempre ser.
- Obrigado, papai! - falou Jos Maria emocionado. Fez os votos no Rio de
Janeiro e depois foi para o
interior da provncia de So Paulo. Entristecemo-nos com sua partida,
porm ele estava feliz e cheio de planos. Escrevamos sempre.
Joo Antnio, filho de Marita, formou-se mdico. Que alegria! Parecia que
realizava meu sonho. Sempre quis ser mdico. Desde pequeno, na Espanha,
sonhava em estudar medicina, no consegui. Mesmo depois de adulto e agora
j envelhecendo, acalentava o sonho de ser mdico, de curar pessoas.
Doenas e remdios eram assuntos que me fascinavam.
Bidu era um mulherengo. Conquistava as escravas das redondezas, mas no
quis mais se envolver com nenhuma. Um dia ele me trouxe um recado:
47'


 Lolita est apaixonada pelo senhor! Pediu para marcar um encontro.
Lolita era uma mulher bonita e a tentao foi grande demais, acabei indo
ao seu encontro. Depois da primeira vez aconteceram outras, e, como era
fcil, passaram a ser freqentes. Depois me envolvi com uma bailarina,
uma moa nova e muito bonita. Quando dei por mim, j fazia meses que nos
encontrvamos. Notei que Marita desconfiava ou j sabia. no queria
mago-la e nunca pensei em deix-la por mulher nenhuma. Terminei o
romance e passei a ser mais caseiro e dar ateno  minha esposa. Mas por
muitas outras vezes tive romances com outras mulheres.
Estvamos em casa agora s com nossos quatro filhos, os dois nossos j
adolescentes, Marquinho, que nos chamava de pai e de me e Dolores, com
oito anos.
Joaquim trabalhava comigo, casou-se e morava perto da estalagem, tudo j
estava sob sua ordem e controle. A penso agora era grande e bonita e nos
dava um bom dinheiro, tnhamos muitos empregados. Estava pensando em
adquirir outra quando comecei a me sentir mal.
- Marita, estou cansado, indisposto, tenho vontade de ir para a cama.
- Pois v, Loureno, cuidaremos de tudo. V descansar. Quanto tempo
trabalha sem descanso?
Nem sabia, s lembrava ter parado de trabalhar na viagem, no navio, e na
estalagem nunca havia parado um dia sequer. Deitei-me, mas no senti
melhora, dois dias depois ainda estava indisposto. Marita e Joaquim me
fizeram ir ao mdico, j que Joo Antnio estava viajando. Ele me
receitou uns remdios e repouso. Tomei os remdios, mas no fiz o
repouso. no tinha pacincia. Ento senti uma dor forte e desmaiei,
quando voltei a mim, Marita e o mdico estavam ao meu lado, no conseguia
raciocinar direito, escutava-os falar, s que no os entendia bem. Ficar
invlido... :,
- no ir mexer com o brao direito...
- Talvez no fale mais...
Meu raciocnio foi melhorando, mas no conseguia me mexer. Joo Antnio
veio me ver, tentou me animar,
48

mas concordou com o outro mdico, no havia nada a fazer. A melhora que
tive dias depois foi que comecei a compreender o que se passava comigo,
ouvia bem, entendia, s que no falava.
Meus filhos se revezavam em carinho e ateno, e Marita cuidava de mim o
tempo todo.
- Calma, Loureno - dizia minha esposa carinhosamente -, voc ficar bom.
Cuidarei sempre de voc!
Vendo-a to delicada, me arrependi profundamente de t-la trado. Queria
pedir perdo, mas no conseguia me expressar. Tentava falar e deixava
todos aflitos, eles no me entendiam. Joaquim achou que era com ele, me
disse com sinceridade:
- Papai, cuido de tudo, estou substituindo o senhor  altura, tenho me
esforado e a estalagem est como o senhor gosta. Prometo ajudar Marita e
educarei meus quatro irmos como se fossem meus filhos. no se preocupe!
Sorri grato. Sabia que ele cumpriria, podia confiar nele, Joaquim era
trabalhador e muito bom. Estava tranqilo quanto a isso. Os dois meninos
j eram adolescentes e a mocinha j era noiva. Marquinho tinha o pai. S
restava Dolores. Para no deix-los aborrecidos por no me entender, no
tentei mais falar. Marita com certeza iria me perdoar ou j me perdoara,
cuidava de mim com muito carinho. Um dia, estando s ns dois, apertei
sua mo e ela sorriu.
- Sabe, Loureno, quero-o bem! Voc foi sempre bom comigo. Quando Amncio
morreu me deixando viva com os filhos pequenos, me desesperei e senti
muito medo. no conseguia dormir, pensando no que iria fazer. Temi no
conseguir trabalhar para sustent-los. no queria esmolar e nem
prostituir-me. Por eles era bem capaz de fazer isso. Voc veio me
auxiliar, casamos e, embora sem amor, at que deu certo. Tivemos bons
momentos...
Esforcei-me e consegui estalar um beijo para ela, que sorriu me beijando
a testa.
- Se quer me agradecer, no precisa. no cuido de voc por obrigao,
fao agradecendo a oportunidade.
49

Levantou-se e fiquei olhando-a. Nunca achei Marita bonita, mas agora
podia v-la como realmente era, pois possua a beleza da bondade e da
honestidade, como sempre seria. Ela me perdoou, senti isso e me
tranqilizei. Pus-me a pensar em Marita: para ela no foi fcil, viva,
longe dos familiares, s podendo contar comigo, me aceitou para esposo
pelos filhos. Talvez tenha amado somente Amncio. As circunstncias nos
uniram e sempre foi uma excelente esposa e me. Ela deve ter sofrido
muito, mas nunca se queixou. Era maravilhosa minha companheira.
Fiquei quatro meses doente, at que uma crise me fez desencarnar.
Senti que desmaiava e fui voltando aos poucos, sem entender o que
ocorria. Estava no quarto, vi, confuso, meu corpo imvel deitado no
leito, vestido com minha melhor roupa, e eu, com a roupa de dormir,
estava perto dele. Mas quem sentia, pensava, era eu, o da roupa de
dormir, o outro parecia um boneco.
Ouvi o choro dos filhos, que diziam:
- Papai morreu...
- Era to moo ainda...
- Tinha muita esperana que sarasse...
Que perturbao terrvel! Queria firmar o pensamento e entender o que
estava acontecendo comigo e no conseguia. Tiraram o boneco, o meu outro
eu, meu corpo fsico, e o levaram. Fiquei sozinho e me senti aliviado.
no sei como, mas consegui me acomodar no leito e dormir. Acordei
apavorado. Que teria acontecido comigo? Estaria morto? Achei que no,
morrer no era assim. no estava sendo julgado e nem vira Deus e nem o
demnio. Deveria estar mais doente ainda, aquele tal derrame havia me
feito perder o juzo. Deveria estar louco. Fiquei desesperado e sofri
muito.
Estava perturbado, mas percebia que os dias passavam. Via Marita triste,
vestida de preto no quarto sem sequer me ver, ela orava, se deitava e
dormia no seu canto, como sempre.
 difcil falar do que sentia, tal era meu desespero. Era ignorado. no
entendia o porqu de eles procederem
50

assim, se antes eram todos atenciosos e amorosos e de repente passaram a
agir como se eu no existisse. Sentia-me sozinho, a solido me doa,
estava profundamente triste e chorava at a exausto.
Um dia senti que estava mais cansado do que de costume, tive vontade de
orar e o fiz. Durante minha existncia encarnada, orei pouco, s vezes ia
 missa Adorava a Deus, era temente, mas no era fervoroso. No navio
passei a ler a Bblia, hbito que nunca abandonei. Mas achava a religio
catlica um tanto diferente do que lia, mas isso ficou comigo, no dizia
nada a ningum. Queria ter sido protestante, mas no fui por no ter
coragem de mudar e de ser minoria, talvez at por comodismo.
A orao me acalmou e, relembrando das passagens prediletas que lia no
Evangelho, senti-me melhor. Ento vi um vulto que julguei ser Leonor e a
escutei.
- Loureno, o senhor teve o corpo de carne morto. Agora dever aprender a
viver em esprito. Quero ajud-lo!
"Morto, eu?! - pensei dialogando com ela. - Nunca! Estou vivo, sinto-me
vivo!"
-  que s o corpo morre, somos eternos - disse Leonor com ternura,
tentando me explicar.
"Tenho medo de voc! Deixe-me em paz! Voc est morta h muitos anos!"
Repeti estas frases muitas vezes em pensamento, porque, julgando estar
encarnado e doente, no falava. Fechei os olhos e quando os abri o vulto
havia sumido e eu fiquei tenso e perturbado. E tudo continuou do mesmo
modo, estava triste, profundamente amargurado com a situao. E se s
vezes vinham na minha mente os dizeres de Leonor, repelia estes
pensamentos com medo. no queria estar morto e certamente, pensava, no
estava.
Era Natal, soube por ter escutado Marita dizer, ela estava mais contente,
a famlia se reuniria e at Jos Maria viria. Marita estava no nosso
quarto se arrumando, quando as meninas entraram - nossas filhas eram
todas adultas, mas para mim ainda eram as meninas - e comearam a falar
de mim. Comecei a chorar baixinho, emocionado e saudoso.
51

- s vezes parece que vejo seu pai sentado naquela poltrona - disse
Marita. - Sinto muita falta dele...
- Pois eu o vejo na poltrona - disse Laurita naturalmente.
Assustaram-se, assustei-me, estava exatamente sentado na poltrona. no
sa do quarto, mas sem entender como, ia da cama para a poltrona, s
vezes at a janela e com facilidade voltava para a poltrona.
- Laurita - perguntou Marita assustada -, voc continua com suas
esquisitices? V Loureno?
- no, estou bem - disse Laurita apressada -, o que quis dizer  que
tambm sinto igual a voc. Imaginei-o sentado na poltrona, como fazia no
perodo em que esteve doente. no tenho mais aquelas esquisitices, estou
bem.
Suspiraram aliviadas e saram. Marita estava sozinha quando Jos Maria
bateu  porta e entrou. Emocionei-me ao v-lo. Estava de batina, abraou
Marita, sorridente, senti-o feliz.
- Marita, pena que no pude ver papai doente, mas quero agradecer-lhe por
ter cuidado dele com tanto carinho.
- Jos Maria, cuidei de Loureno e cuidaria quanto tempo ele ficasse
doente. Era meu dever de esposa, mas no o fiz por dever. Queria bem a
ele. Seu pai e eu estivemos juntos muito tempo, no foi uma unio por
amor, foi pelas circunstncias que nos unimos e nos esforamos para dar
certo. Fomos amigos! Ajudamos muito um ao outro.
- Entretanto ele a traiu...
- Suas traies no me magoaram, perdoei-o. S guardo dele as boas
recordaes, ele me ajudou muito e sou muito grata.
Chorei emocionado, uma das filhas chamou Marita, que saiu do quarto, e
Jos Maria ficou sozinho comigo. Ele se ps a orar:
"Papai, que Deus o abenoe! Que os Anjos do Senhor, que so as boas almas
que viveram na Terra, possam ajud-lo. Queira esta ajuda, por favor! no
seja orgulhoso! Tudo muda! Fez a grande, a maior mudana de sua vida,
adapte-se a ela!"
:. 52:

Saiu do quarto, e vi Amncio ao meu lado
- Loureno, entenda que seu corpo morreu - disse ele carinhosamente
sorrindo, tentando no me assustar mais do que eu j estava por v-lo ali
ao meu lado.
no falava, apenas pensava, pois achava que no conseguia balbuciar e nem
me esforava, mas, como Leonor, Amncio me entendeu. Disse a ele, ou quis
dizer:
"Amncio, voc est morto h tanto tempo. no veio me cobrar nada, no ?
Cumpri a promessa."
- Por que acha que vim cobrar? Venho ajud-lo! Voc foi muito amigo, sou
profundamente grato. Criou meus filhos como se fossem seus. Mas agora
deve vir comigo.
"Para onde?" - indaguei.
- Para um lugar bom, bonito; venha, no tenha medo. Fomos sempre amigos.
"Est bem, vou."
Estava com medo, mas dei uma de corajoso, sorri, pensando como Amncio ia
me levar, eu no caminhava. Mas ele me pegou como se eu fosse uma
criancinha e senti que levantou do cho comigo nos braos. Gritei
apavorado:
"O telhado, Amncio!"
Mas passamos pelo telhado, segurei nele com fora . e fechei os olhos, s
os abri quando senti que Amncio andava novamente. Olhei tudo, curioso.
Pensei indignado:
"Onde estamos? Que lugar  este?"
- Por que voc no fala, Loureno? - disse Amncio, me olhando, sorrindo
tranqilamente.
- no consigo - falei. - no consigo?! Estou falando!
Amncio me deixou num leito, me explicou que estava num local chamado
hospital, numa enfermaria, e que ali me recuperaria dos reflexos da minha
doena carnal.
Levei meses para me recuperar, sempre com os cuidados e carinhos de
Amncio e Leonor.
- Loureno - explicou Leonor -, eu e papai o desligamos quando seu corpo
morreu, mas no pudemos socorr-lo. Estava to ligado  matria que no
conseguia nos ver, mas estava sempre um de ns a visit-lo e tentvamos
faz-lo entender seu estado de desencarnado.
53

- Mas eu no os via, s vi voc, Leonor, uma vez e tive muito medo.
- Foi quando voc orou com sinceridade. no nos viu por temor e porque,
preso  matria, enxergava como se ainda estivesse encarnado. Quando
papai o socorreu, foi porque pde usar da energia de Laurita e pela
vibrao maravilhosa de Jos Maria       - Sou grato a vocs!Tambm somos
a voc! - exclamou Amncio, feliz.       - Amncio - indaguei-o curioso -
, onde est Dolores, minha primeira esposa, e Eva, minha filhinha que
morreu no navio? Gostaria de abra-las. Ser que Dolores achou ruim por
eu ter casado com Marita?
Riram.
- Loureno, voc ir aprender muitas coisas agradveis, boas e coerentes
por aqui. Dolores, tal como eu, abenoou sua unio com Marita e foi muito
grata a ela por ter sido me para as crianas. Dolores e Eva
reencarnaram. Voc ir compreender que Deus  bondoso demais conosco e
nos d sempre novas oportunidades de nos melhorarmos. Voc viu que seu
corpo morreu e apesar disso continuou vivo e voc pode retornar a um
outro corpo em formao no tero de uma mulher, ser outra personagem e
viver novamente na matria, isso  a reencarnao. Dolores voltou 
Espanha e por l reencarnou, e Eva voltou tambm  matria, renasceu como
sua filha, aquela a quem voc deu o nome de Dolores.
- Isso  fantstico! - exclamei.
Os dois saram e fiquei a pensar em tudo o que me disseram. Amei Dolores,
minha primeira esposa, porm a esqueci com o tempo. Recordava dela em
raros momentos. Compreendi: ela continuou sua caminhada como eu continuei
a minha. Era grato a esse esprito, mas achava que agora estava muito
mais unido a Marita.
Recuperei-me e fui aprender a viver com o corpo que eu tinha agora, o
perisprito. Havia feito uma mudana. E como sentia ser grande esta
mudana!

Querendo aprender a amar
local, porm gostava muito, muito mais da vida encarnada. s vezes
chorava com d de mim, de saudade, de vontade de estar encarnado na minha
casa, trabalhando, tendo outras mulheres, tomando o meu vinho. E, nesses
momentos, muitas vezes as oraes de Jos Maria vieram me confortar.
"Papai, ame a vida, aceite o que lhe  oferecido. Tudo muda! O senhor
mudou a forma de viver. Ame e tudo se tornar mais fcil."
Pensei, pensei muito e conclu que o que faltava em mim era amor. Quis
aprender a amar. Fui conversar com meu instrutor.
- Senhor, gostaria de amar. Queria aprender a amar a tudo e a todos.
Quero sentir o amor verdadeiro, sem egosmo, sem paixo. Queria, ao
reencarnar, amar e agora viver com amor a vida de desencarnado.
- Para amarmos  necessrio compreender que somos parte de um todo, do
universo criado por Deus. Como isso  difcil! Podemos, tendo afinidade
com outro esprito que ama, absorver os fluidos de sua aura bondosa.
Nesse contato aflora em ns o amor que tanto queremos cultivar.
"vou lhe dar um exemplo: a madeira  fogo potencial, mas, por maior que
seja a montanha de madeira, ela no gera fogo atual, para que este fogo
atual possa atuar  suficiente um palito de fsforo.
"Ns todos temos um tremendo amor potencial herdado do Senhor do
universo, muitas vezes precisamos
55::
o fogo atual de um outro esprito para que nosso potencial se realize.
Aps uma pausa, indagou-me:
- Como acha que aprender?
- no sei bem, mas, aps escut-lo, acho que com algum que ama.
- Conhece algum?
- Sim, meu filho Jos Maria.
- O padre! Sim, creio que ele sabe amar.
A me lembrei do passado... Estava cansado, sofrendo muito, vagando com
muito remorso e ele veio me socorrer. Tive s esta lembrana. Senti
naquele instante que ele veio ser meu filho para continuar me ajudando. O
instrutor me olhou e sorriu.
- Vamos analisar seu pedido, Loureno. Acho tambm que com o padre Jos
Maria voc aprender muito.
Dias depois ele veio me ver.
- Loureno, voc poder ficar junto de Jos Maria, poder, em esprito,
ser seu companheiro de trabalho. Mas para isso dever estudar para
aprender bem o que deve ou no fazer um desencarnado que fica junto a
encarnados.
- Mem que estude por cem anos no serei melhor do que ele - respondi.
- Tambm acho - disse o instrutor tranqilamente -, pois ele no pra de
aprender, est sempre aproveitando as oportunidades para se instruir e
progredir. Por que acha que tem que ser melhor do que ele?
- Pensei que o protetor fosse sempre melhor do que o protegido - falei.
Ele riu e elucidou-me:
- Desencarnados que ficam perto de encarnados com intuito de ajud-los ou
serem seus companheiros de trabalho podero ser tidos como guias,
protetores, mas nem sempre  assim, na maioria das vezes so amigos que
aprendem juntos. Voc, Loureno, ir ser, na realidade, discpulo de Jos
Maria. Eu disse 'companheiro' e  o que sero, j so amigos e um afeto
sincero os une. no pediu para aprender? Achamos que com ele aprender e
juntos faro muitas coisas boas. Loureno, lembremo-nos de que
 56

tambm so tidos como guias e protetores desencarnados maus, que, ligados
com os seus afins, fazem maldades juntos. no pense voc que s pelo fato
de estarem desencarnados so mais eficientes e sbios. no despreze o
encarnado, ele era o desencarnado de ontem e ser o de amanh. Embora
preso no corpo de carne e tendo limitaes, ele  o que faz por ser. E
voc no deve ir para perto de Jos Maria como desencarnado paternalista
querendo fazer toda a lio que cabe a ele, voc deve fazer sua parte e
deixar que ele faa o que lhe cabe para que continue a crescer e a
aprender. Voc tambm, fazendo o que lhe compete, progredir. E tambm
no deve pensar que ele lhe obedecer. Jos Maria tem como todos ns o
livre-arbtrio. Ele receber suas idias, porm tem discernimento para
analis-las com inteligncia e s acatar o que lhe convm. Todos os
encarnados deveriam agir assim, analisar tudo que venha dos
desencarnados, discernir e acatar realmente o que for bom para eles e
para o grupo.
Fez uma pausa e continuou a me elucidar, no entendi bem o que ele disse
no momento, mas, como os bons ensinamentos ficam, tempo depois, j ento
mais maduro, os entendi.
- Loureno,  muito comum hoje, na nossa humanidade, confundir
conhecimento intelectual com intuio espiritual. Conhecimento
intelectual faz parte de ns, o que j vivemos na vida,  passado,
portanto  algo que j acabou. Intuio espiritual  a abertura da nossa
alma para o movimento da vida, que no  passado nem futuro,  sempre
atual. Paulo de Tarso, compreendendo esta profundidade da unicidade do
indivduo com o universo, disse: "J no sou mais eu que vive, mas sim
Cristo que vive em mim." Ele no estava falando de sua intuio como
homem, mas sim transcendendo a mente superficial da vida ou a material,
porque nossas mentes, as da maioria da humanidade, esto ligadas s
funes materiais, portanto so mentes materiais. E devemos ser mais que
isso, devemos sentir sempre Cristo em ns.
Agradeci, comovido.
57

 Tive permisso para ir visitar minha famlia. Leonor me acompanhou.
Primeiramente ela me levou at meus filhos, no demorou muito, vi-os,
tranqilizei-me percebendo que estavam bem, abracei-os e depois fomos
para minha ex-casa. A estalagem estava como sempre, limpa e bonita.
Joaquim havia realizado meu sonho, comprou uma outra e foi com a famlia
dele morar l. Continuaram cuidando da minha ex-casa, Marita, Bidu e
Marquinho. Meu filho solteiro entrou para o exrcito e a mocinha se
casou, Dolores, nossa filhinha, estava muito bem e bonita.
Olhei-os com carinho. Lembrei de quando comprei Bidu, de fato no me
arrependi nem de t-lo adquirido e nem de ter lhe dado a liberdade. Ele
foi sempre leal e trabalhador.
Marquinho estava moo, estudou com o professor em casa, s que no pde
ir ao colgio, no o aceitavam por ser negro. Marita chateou-se, mas ele
no se importava, gostava de trabalhar. Olhei-o, era um lindo rapaz,
educado e enquanto eu o observava, foi perguntar algo a Marita.
- Leonor - disse eu -, Marita teve tantos filhos, todos a amam muito, 
difcil algum no lhe querer bem. Mas acho que Marquinho a ama mais que
os outros. Ser que j viveram juntos outras existncias?
- Tambm j notei o carinho que Marita tem por Marquinho - disse Leonor.
- J pesquisei isso e tive uma surpresa. no, Loureno, eles no viveram
juntos, o afeto  dessa existncia mesmo. Marquinho foi, na sua outra
existncia, Abelino.
- Abelino? - indaguei assustado. - O negro que desencarnou lutando
comigo?
- Sim - continuou Leonor a me elucidar -, quando ele desencarnou, Marita
orou por ele, isso muito o ajudou. Ele ento, grato, passou a querer-lhe
bem. Para continuar seu aprendizado teve novamente de revestir um corpo
negro e, quando Benedita ia conceber, teve permisso para reencarnar
perto daquela que julgou ser sua benfeitora e assim o fez.
Olhei-os com amor. Entendi que realmente ele me perdoara. Os dois
conversavam:
58
- Mame - disse Marquinho -, v descansar, fao isso para a senhora.
- no estou cansada, Marquinho. Sabe bem que gosto do trabalho.
- Sei sim, mas no quero v-la doente. Por favor, no se exceda.
- Voc  um bom filho, menino de ouro! - disse Marita sorrindo.
- A senhora  uma me maravilhosa e sou grato a Deus por t-la como
madrinha.
- Marquinho, sou sua me, no o pari, me de corao  mais do que de
barriga. Quero-o como meu filho!
Leonor me puxou pela mo.
- Temos que ir!
- J? Queria ficar mais.
- Vamos, Loureno, ainda temos que ver Jos Maria. Volitamos, aprendi a
volitar, gostava de aprender.
Tinha conscincia do muito que ainda tinha que aprender e ansiava por
faz-lo.
Jos Maria estava no interior da provncia de So Paulo, numa cidade que
prosperava. Passara trs meses com Marita e voltara  sua atividade.
Encontramo-lo em sua cela, ou quarto. Estava lendo. Leonor e eu o
abraamos. Minha acompanhante passou as mos pelos seus cabelos.
Jos Maria parou de ler e ps-se a recordar, acompanhamos suas
lembranas.
Tinha poucas recordaes da Espanha. A viagem para o Brasil o marcou
muito. O balano do navio lhe dera muito enjo. Sentiu muito a
desencarnao de Eva, foi doloroso para ele ver seu corpinho sendo jogado
ao mar, enrolado num pano branco.
Depois a complicao do parto da me, orou sozinho pedindo a Deus que no
a deixasse morrer. Com a desencarnao de Dolores, a dor e a insegurana
o assaltaram.
"E se papai no nos quiser mais? - pensou aflito, naquele momento. - Se
ele casar com outra e sua mulher no nos quiser? Ser que serei capaz de
criar meus irmozinhos? Chorou muito. Foi um perodo difcil em que
sofreu demais. Mas no deixou ningum perceber seu sofrimento, isso para
no me entristecer mais ainda. E resolveu que, como era o mais velho,
iria me ajudar.
no gostou da viagem, mas no reclamou e fez de tudo para me auxiliar,
cuidando dos mais novos com carinho.
Lembrou-se da fazenda, do meu primeiro emprego, de como trabalhou. Agora,
acompanhando suas lembranas, vi que, embora ele fosse ainda to pequeno,
resolvia os problemas dos irmos menores e que trabalhava muito para me
ajudar.
A mudana novamente, lembrava-se dos detalhes, tambm recordei
emocionado. Lembrou da desencarnao de Amncio, da preocupao com
Marita, a quem queria muito bem, do alvio quando resolvi morar com ela e
os primos, da alegria em ver-nos casados.
Ento descobri que Jos Maria e Leonor se amaram... O amor puro,
verdadeiro, os uniu na beleza da adolescncia. Os dois fizeram planos de
casar, ter filhos e logo que estivssemos estabelecidos no Rio de Janeiro
iam nos contar do namoro. Os dois iam constantemente ao riacho, faziam
planos, o futuro para eles ia ser lindo.
Vi emocionado as cenas em que ele saiu para chamla no dia que
preparvamos a mudana. Foi ao riacho gritando o nome dela, estava feliz,
quando a viu cada, estremeceu, teve um estranho pressentimento e correu
para perto dela.
"Leonor, que aconteceu? Voc caiu?"
Sentiu um frio estranho, teve medo, segurou sua mo inerte, entendeu mais
pela intuio que pelos conhecimentos que ela desencarnara.
"Meu Deus! - exclamou angustiado. - Leonor est morta!"
Beijou-a no rosto, o primeiro e ltimo beijo. Lgrimas escorreram-lhe
pela face. Deixou-a como estava e correu aos gritos pedindo socorro.
Como ele sofreu! Por tempo se iludiu, Leonor certamente voltaria, depois
resolveu no amar mais ningum e ao mesmo tempo amar a todos. Quando
Laurita,
60

na estalagem, pediu aos gritos que no chorassem por ela Jos Maria
afastou-se e, em lgrimas, como se sua amada o escutasse, disse:
"Leonor, meu amor, no quero prejudic-la. Quero-a feliz! Muito feliz!
Que eu sofra, mas voc no!"
E Leonor o escutou, pois ali estava em visita, tentando consolar-nos.
Ento, naquele momento, ele a viu. Leonor, pelo ectoplasma de Laurita,
pde, com auxlio de um orientador que a acompanhava, fazer-se visvel.
Ela estava linda, radiosa e lhe disse com muito carinho:
"Como posso ser feliz vendo-os sofrer por mim'? no quero que sofra! A
vida continua com a morte do corpo, nossos sentimentos so os mesmos. Amo
voc, amo todos vocs. no h separao, s me ausentei fisicamente.
Poderei visit-los sempre. E sofrerei ao saber que sofrem por mim."
Leonor desapareceu da viso de Jos Maria. Logo acabou o horrio da
visita e ela regressou  colnia. Jos Maria ficou a meditar. Amenizou a
saudade ao v-la, tranqilizou-se ao saber que ela estava bem. Entendeu o
que ela lhe dissera. Estariam sempre ligados, o amor que os uniu era
sincero, puro e verdadeiro, a ausncia fsica dela no era motivo para
findar este sentimento." prefervel
- pensou - amar mesmo longe do que nunca sentir o amor. Tantos vivem
juntos sem se amar..." Desde esse dia, no sofreu mais por ela, no a
perdeu, ningum perde ningum j que no se pode ser dono, proprietrio
do outro, e compreendeu tambm que o amor une mesmo a distncia. Guardou
esse amor no fundo de seu corao e este passou a ser a sua fora para
todas as dificuldades.
Jos Maria findou suas lembranas, levantou-se e preparou-se para se
deitar.
- O amor  o brado da alma! - exclamou Leonor. Entendi que era o amor que
dava fora a Jos Maria
para prestar auxlio, era isso que ele sentia. Admirei mais ainda meu
filho.
- Vamos, Loureno - disse minha acompanhante -, temos que voltar.
- Voc sempre vem v-lo? - indaguei.        -.
61

- Sempre! Amo Jos Maria! Amo os familiares, os amigos, como tambm tento
amar a humanidade. Tenho, porm, profundo respeito pelo que Jos Maria ,
pelo que ele faz. Somos amigos, verdadeiramente amigos.
Voltamos  colnia. Dias depois iniciei o curso onde aprenderia a
trabalhar com os encarnados. E a primeira pergunta que fiz ao meu
instrutor foi esta:
- Todos que trabalham com encarnados fazem este curso?
- Infelizmente no! Encarnados que no estudam quase sempre tm
afinidades com desencarnados que no o fazem. Seria o ideal se todos,
encarnados e desencarnados, estudassem e fizessem o bem com sabedoria.
Mas nem todos fazem o bem... Temos insistido para que os desencarnados
que querem trabalhar com os encarnados na ajuda ao prximo venham
estudar, mas muitos se recusam. Porm h muitas maneiras de aprender, e
h os que aprendem fazendo, no dia-a-dia.
Apesar de ter escutado isso h muitos anos,  ainda real este
acontecimento, infelizmente. Seria bem mais proveitoso se todos fizessem
o bem com conhecimento. E oportunidades de conhecer e de aprender, todos
tm.
Fiz o curso com grande aproveitamento e quando terminou fui para perto de
Jos Maria, onde me cabia ajudar e aprender.


62


Jos Maria
 Jos Maria morava num colgio junto com os outros padres. Era uma
construo bonita, grande, rodeada de jardins; era um local rico. A
escola instrua meninos de famlias de posse que recebiam aulas em regime
de internato ou externato.
Meu filho trabalhava muito, o padre superior o sobrecarregava de
trabalho, para evitar que se envolvesse em confuso. Ele era
abolicionista, no o escondia, e o superior no queria desgostar ou ter
problemas com os pais de alunos que eram, na maioria, escravocratas.
Meu filho lecionava no colgio para os meninos menores, onde no lhe
cabia colocar suas idias. Trabalhava na secretaria e arrumava tempo para
ensinar crianas pobres.
Havia, no muito longe do colgio, uma senhora, d. Ambrozina, que, tendo
uma casa grande e espaosa, transformou-a numa escola. Os alunos, na
maioria filhos de imigrantes e de empregados, ansiavam por aprender.
Havia tambm alunos que eram escravos que os senhores deixavam freqentar
as aulas, e libertos.
Todo o tempo de que dispunha, Jos Maria dedicava a esta escola. Ensinava
primeiramente d. Ambrozina e algumas jovens que queriam ser professoras.
no tinha folga, aos domingos celebrava missa pela manh para os pobres e
 tarde ensinava o catecismo s pessoas carentes.
Jos Maria era franzino, magro, mas tinha boa sade, o excesso de
trabalho cansava seu corpo, mas no reclamava e fazia tudo com alegria.
Quando indagado sobre seu trabalho, respondia sorrindo:
63

- Trabalho para Deus. Sinto Deus em tudo e em todos. O Pai trabalha,
logo, tambm posso trabalhar. Sou grato ao trabalho, amo o que fao! 
trabalhando, sendo til, que aprendo sempre!
Compreendi o que meu filho queria dizer. Porque ao desejarmos ajudar, se
no soubermos fazer, corremos o risco de causar mais mal do que bem, o
sbio deve ser sabiamente til. Estava atento para aproveitar todas as
oportunidades de aprender.
E estando perto dele, aprendi, at me instrui, assistia s aulas e
aproveitava para adquirir conhecimento.
Pelo colgio vagavam desencarnados, uns querendo ajudar, outros perturbar
ou at se vingar, mas nenhum mal-intencionado se aproximava muito de Jos
Maria. Meu filho vibrava o bem e no era sugestionvel. Isso percebi
logo. Um dia, achando tambm que ele trabalhava muito, falei-lhe. Eu
falava e ele captava meu pensamento ou recebia minha intuio.
"Jos Maria, descanse um pouco!"
"Por que ser que estou a pensar assim? " - perguntou-se. - Ser meu este
pensamento? no me sinto cansado! Se sentir que prejudico meu corpo,
descansarei. Ser que este pensamento me  sugerido por algum? Bem, se
for, voc, por favor, que me sugere, no se preocupe, meu trabalho no me
cansa. Amo o que fao! Seria bem triste no trabalhar enquanto posso.
Certamente chegar o tempo que, j sem a fora do meu corpo jovem, no
poderei ter essas atividades. A me alegrarei, porque enquanto pude,
fiz".
Ento, no lhe sugeri mais descanso. As frias do colgio aproximavam-se
e ele certamente, pensei, descansaria. Mas que nada! No colgio ele teve
muitas outras atividades, organizou a biblioteca, a tesouraria e passou a
dar mais aulas na escola da d. Ambrozina, lecionando  noite para os
adultos.
O superior do colgio era uma pessoa boa, mas estava atento s atividades
de Jos Maria. Ele j havia, desde que chegou ao colgio, arrumado
algumas encrencas. Por isso o superior no o deixava atender e nem
celebrar missas de pessoas ricas, porque meu filho, sempre que tinha
64oportunidade, em seus sermes, falava da igualdade entre os homens, O
maior atrito entre os dois foi porque Jos Maria queria que os escravos
da congregao fossem libertos, porm s conseguiu que fossem mais bem
tratados.
Ele recebia sempre cartas da famlia e as respondia com entusiasmo, para
ele tudo sempre estava bem. Compreendi que era assim mesmo que ele se
sentia, muito bem. Jos Maria tinha a paz da conscincia tranqila. Amava
a todos e era querido, mas tambm invejado.
O que me preocupava era que ele fazia parte de um grupo abolicionista. E
como ele era querido e respeitado, seus companheiros o ouviam, atendendo
suas idias. Reuniam-se cada vez na casa de um deles em horrios
diferentes e sempre com cautela. Meu filho estava sempre a
aconselhar:Nada de violncia! no  revidando ataques que se constri.
Certamente, ao estarmos fazendo algo de til, h e haver sempre os que
nos contradizem. Ns e eles, todos somos livres para ter idias e lutar
por elas. Todos devem ser respeitados! E seremos respeitados mostrando
nosso trabalho aos que pensam o contrrio. Que nos importa os outros?
Devemos fazer o que nos compete e bem feito. Crticas? no devemos
criticar e nem nos importar quando as recebemos, mesmo as destrutivas. O
que  bom fica, e o que no  aproveitvel passa sem deixar rastros.
O grupo foi crescendo, cada vez estavam mais entusiasmados. Temia por
ele, mas me orgulhava por ser corajoso e destemido.
Ainda no o ajudava em nada. Estava sempre tentando conversar com os
desencarnados que vagavam pelo colgio. E quando alguns desses irmos
perturbados se aproximava de Jos Maria, ele redobrava a ateno, orava e
enviava pensamentos de amor a eles, alguns se beneficiavam sentindo-se
bem, outros afastavam-se logo. Meu filho era sensitivo, no era
clarividente, mas sentia quando algum desencarnado se aproximava dele e
distinguia suas intenes, boas ou ms. Quando isso acontecia e entidades
mal-intencionadas se acercavam dele,
65

eu falava com elas da necessidade de mudar a forma de viver e de como
poderiam se sentir melhor fazendo o bem. Um dia, trs desencarnados
aproximaram-se de Jos Maria querendo perturb-lo. Escutei-os
conversando:
- Vamos dar trabalho a este padreco - falou um deles.
- Que vamos lucrar tentando-o? - indagou o outro.
- Este  bonzinho demais - respondeu o que era chefe ou lder do grupo. -
S d bom exemplo! Onde passa conserta tudo! Eu queria que o Joo, aquele
escravo, fosse maltratado. no est sendo, e por qu? Pelas idias desse
padreco. Ele necessita de uma lio!
Aproximou-se de Jos Maria, que estava orando ajoelhado no seu oratrio.
Disse alto, fixando seu olhar maldoso no meu filho:
- Voc est cansado! Muito cansado! Pare um pouco, v curtir uns dias de
frias!
- Por que est falando isso a ele? - indagou um deles.
- Ora, ele trabalha muito, est sempre ocupado e no tem tempo para ter
d de si mesmo, nem tempo para nos escutar. Veja, est to concentrado
nas suas oraes que nem me ouviu. E ainda faz sua vibrao ser
completamente desagradvel a ns. Estou querendo, para quebrar a rotina,
algo difcil de fazer, se no nem ia me aproximar desse padreco.
Resolvi interferir:
- Por favor, vocs trs!
Ento me viram, riram e o que parecia ser o chefe respondeu irnico:
- Ora, aqui est um amigo do padreco. Que foi? Est achando ruim? S
vamos cans-lo!
- Deixem-no em paz! - exclamei. - Ele no est mexendo com vocs.
- Como no est! - falou o chefe nervoso. - Quando impede de nos
vingarmos, est interferindo. Quando convence um dos nossos a fazer o
bem, est nos afrontando.
- Ora - respondi -, ele est s ajudando os negros. E se vocs fossem
negros? E se reencarnarem como negros?
66

- Gostaria de ser ento escravo dele - disse um deles
- Cale-se idiota! - falou o chefe irado. - Que reencarnar o qu! Isso 
para o futuro. Devemos pensar no agora.
Comeamos a discutir. Fui imprudente. Agi mais pela emoo que pela
razo. De repente, Jos Maria levantouse e disse:
- Trabalho  trabalho! Antes fazer alguma coisa, mesmo errada, mas que no
momento se julga certo, qu no fazer nada! Se trabalho, voc, ou vocs
que querem me fazer parar, vo ter que trabalhar muito, tanto quanto eu!
no paro para satisfazer a ningum! no estou cansado e se estiver,
descansarei para o bem do meu corpo, mas meu esprito no se cansa. Estou
bem, porque sinto Deus comigo e sinto Deus em vocs, embora vocs no O
sintam.
Ficamos quietos, boquiabertos, e um deles falou:
- Eu no vou com ele! J sinto cansao s de pensar em ficar com ele.
- Pois eu vou!
Os outros dois se ajeitaram para acompanh-lo, fui junto, atento a eles.
Jos Maria foi para a escola de d. Ambrozina, as crianas vieram correndo
encontr-lo. Logo se ps a ensin-las. E mentalmente, dirigiu-se a ns:
"Por favor, fiquem ali e no perturbem. Aprendam tambm!"
E deu sua aula.
O outro desencarnado, entusiasmado, disse:
- Legal! - e dirigindo-se a mim: - O que ele ensina  interessante.
Sempre quis aprender a ler.
- Vocs, meninos e meninas - disse Jos Maria -, sero os adultos de
amanh. O saber facilita a existncia, porm no  um fim, e sim um meio.
Porm tudo o que fazemos com conhecimento, fazemos melhor. O importante 
viver sempre com Deus no nosso corao, fazer tudo como se estivssemos
vendo-O. Viver de tal forma que se vssemos Jesus no iramos nos
envergonhar, e sim nos ajoelhar e render graas.
Jos Maria repartia bem seu tempo, saiu dali e foi visitar uns doentes,
dando consolo e reanimando-os. Trabalhou como sempre e ns trs
permanecemos ao seu lado.
67

- Que coisa! - exclamou o chefe. - E/e no pra para me ouvir e se ouve,
sua resposta me deixa encabulado.
- Eu quero estudar! - disse o outro. - Quero ler e escrever.
- Desencarnados no aprendem! - disse o chefe.
- Claro que aprendem! Sabe, conheo uma escola onde ensinam
desencarnados. Se quiser, levo voc l.
-  junto com os bons? - indagou desconfiado.
- Junto com os que aprendem a ser bons - respondi.
- no quero!
- Vamos descansar - disse o chefe -, estou cansado...
Saram. Eles se cansaram porque viviam como se fossem encarnados, ou
tentavam se sentir como se ainda " tivessem o corpo carnal. E os que
vivem assim sentem as sensaes de encarnados.
Orei e chamei por Leonor, que logo veio.
- O que est acontecendo, Loureno?
- Tem dois desencarnados querendo perturbar Jos Maria. Eu no sei o que
fazer.
- Sempre h entidades querendo nos perturbar. Isso tambm acontece com
Jos Maria. O que eles fizeram?
- Nada! - respondi. - no tiveram chance.
- Por que se preocupa? Em tudo de til que se faz, h sempre algum que 
contra.  nas dificuldades que aprendemos a ficar alertas e a amar a
todos. Querer bem os amigos  fcil, mas tambm temos que amar aqueles
que so contra ns. Depois essas entidades aprendero que as armas que
usam nem sempre so eficientes e que os outros, os que elas pretendem
perturbar, podem t-las tambm. E que o bem sempre  mais forte!
, No outro dia vieram os dois e fiquei com eles. Por
dias acompanharam Jos Maria nas suas atividades. O outro
,, acabou aceitando meu convite para ir estudar. Aproximou-se do meu filho
e pediu perdo.
"Perdo, senhor padre! Peo-lhe que me perdoe!"
  Amo voc como meu irmo! foi sua resposta em
pensamento.
- O que pediu perdo sorriu e eu elucidei-o:
68

- O perdo no  necessrio onde o amor realmente existe. Amar, no
conceito dele,  nunca ter que pedir perdo, porque ele jamais faz mal a
algum. E nem tem o que perdoar, porque nada o ofende. Tudo compreende,
tudo entende!
- Obrigado! - disse com sinceridade.
Levei-o  colnia para estudar. Entendi que aquele que ama consegue
atingir a todos com sua vibrao benfica. O chefe perdeu o interesse e
despediu-se de mim:
- vou embora, seno acabo por me prejudicar, acabarei carola igual a ele.
Senti alvio, mas sempre havia entidades perturbadoras da paz querendo
que Jos Maria parasse de fazer seu trabalho. Mas meu filho tinha fibra,
nada, nem atos externos, nem conselhos desanimadores, nem exaltao 
vaidade, nada o fazia esmorecer. Fixava sua mente no trabalho a realizar
e o fazia. Foi uma das maiores lies que aprendi. Fixe sua mente, seu
corao, na tarefa a realizar, faa-a para o Pai, faa-a feliz no dia-a-
dia, trabalho a trabalho e realizar o que lhe compete. Se deixarmos de
fazer, pararmos e no acabarmos a tarefa que nos dispusemos a realizar,
ou se a adiarmos, ficar sempre por fazer.  parar no caminho. E nada de
intolerncia, aprendemos a ser tolerantes na constante atividade, no
trabalho til.
Jos Maria estava se tornando perigoso para as pessoas importantes
naquela poca, naquela cidade. Importantes, mas passageiras, pois ttulos
e bens materiais passam, o que importa  fazermos por merecer os tesouros
espirituais que so nossos e nos acompanham por onde vamos.
Um dia, ao sair da aula na escola da d. Ambrozina, Jos Maria viu algumas
pessoas reunidas e aproximou-se. senhor ia castigar um escravo. Tentou
ento impedir:
- Por favor, senhor - disse -, no castigue seu escravo. no sei o que
ele fez, mas converse com ele, entre num acordo.
O negro estava cabisbaixo e com medo. O senhor, arrogante, respondeu
rudemente:
69

- no interfira, seu padre dos pobres! no se meta!  corajoso o
suficiente para receber o castigo no lugar dele?
- Sou sim, senhor! - respondeu Jos Maria.
- Castigue-me!
Desabotoou sua batina e, deixando as costas nuas, disse:
- Amarre-me e chicoteie-me, senhor!
O senhor riu, ia comear a amarr-lo no poste quando as pessoas, agora em
grande nmero, comearam a gritar:
- no bata no padre Jos Maria! .-;
- no castigue o negro!
Pegaram pedras, o senhor temeu e no sabia o que fazer, quando uma
senhora rica interferiu: >
- Parem com isso! Quanto quer pelo escravo?      , O senhor falou a
quantia e a senhora pagou.
- Pronto - disse a senhora -, agora o escravo  meu e fao dele o que
quiser. vou d-lo ao senhor padre.  seu!
Jos Maria abotoou a batina, beijou as mos da senhora e disse:
- Obrigado! Muito obrigado!
E deu a carta de alforria ao negro. As pessoas bateram palmas, deram
vivas.
Isso fez com que o grupo de abolicionistas aumentasse. Passaram a ajudar
escravos a fugir, alforriaram os que compravam com dinheiro das doaes.
Jos Maria pensava muito na Justia Divina. Queria compreender, para no
duvidar.
Ajudei-o a achar um livro, na biblioteca, sobre o cristianismo antigo.
Antes dos ensinamentos de Jesus serem aceitos pelos romanos, acreditavam
os apstolos e os primeiros cristos que os espritos renasciam muitas
vezes, em diversas circunstncias, para aprender e progredir.
"Meu filho - disse-lhe -, vivemos muitas vezes em corpos fsicos
diferentes. O corpo carnal morre, vive-se desencarnado e depois volta-se
a outro corpo em formao, numa oportunidade para recomear, reparar
faltas e continuar aprendendo. Deus  justo e bondoso nos dando outras
oportunidades". ;u
70
\ -

- Chorou emocionado com a compreenso que tivera. No colgio, os padres
ficaram sabendo das atividades dele, do episdio da rua que resultou na
libertao do escravo. Como tambm senhores ricos e escravocratas
reclamaram dele, exigindo que o superior tomasse uma providncia. O padre
superior o chamou para uma conversa
- Padre Jos Maria, j o proibi de se envolver com os abolicionistas.
Sobrecarreguei-o de trabalho e no adiantou. Vim a saber que continua no
movimento. Ganhou um escravo e alforriou-o. no podia fazer isso, tudo o
que ganha  da congregao. vou transferi-lo! Ser afastado agora. Ter
trs meses de frias e os passar no Rio de Janeiro com sua famlia.
Depois ir para o interior de outra provncia, onde construiremos um
colgio.
- Para as crianas ricas...
- Para as crianas, padre Jos Maria, cujos pais podem pagar para nos
sustentar.
- Fazemos votos de pobreza e vivemos como ricos e...
- J sei suas idias, padre Jos Maria, j sei! V preparar suas coisas.
Parte amanh cedo para o Rio de Janeiro.
Jos Maria ia pedir para ficar mais tempo, mas o superior deu por
encerrada a conversa.
Todos no colgio sabiam de suas idias. Achava que todos os padres
deveriam ser pobres e viver na simplicidade e ensinar todas as crianas e
jovens igualmente, as ricas e as pobres. Deveriam viver a exemplo de
Jesus e dos primeiros apstolos. Ansiava por fazer sua congregao
compreender e viver esses princpios. Entendi ento que meu filho se
fizera padre na tentativa de ajudar a Igreja e lembrar aos seus
seguidores esses princpios. no queria criticar, mas colaborar e achou
que s pertencendo ao grupo catlico conseguiria. Porm no era simples e
fcil essa tarefa. Concluiu ento que deveria fazer sua parte e
exemplificar. Isto estava fazendo, e bem feito.
Foi para sua cela e ps-se a arrumar seus objetos. Tinha pouca coisa, s
o indispensvel. Sentia ter de deixar
71

tantos amigos. Lutou contra o sentimento de tristeza, no se deixando
envolver. Nossa vida, pensou, so etapas e deveria aceitar como finda sua
permanncia naquele colgio e naquela cidade. Outra tarefa lhe seria
dada, outra etapa se iniciaria.
Escreveu uma carta aos companheiros alertando-os para que tivessem
cuidado e despedindo-se. Depois passou rapidamente pela escola de d.
Ambrozina e despediu-se. Foi uma perda, todos o amavam muito.
Mas Jos Maria estava esperanoso, iria com certeza fazer novos amigos.
Depois ia rever seus familiares, estava saudoso.
Partiu feliz no outro dia. :
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72

Jos Maria partiu, a viagem foi desconfortvel e longa. Demorou dias, iam
parando pelo caminho. Meu filho sempre achava um modo de ajudar,
conversava com todos os companheiros de viagem, animando-os e lembrando-
os de Deus.
Sua chegada foi uma grande surpresa. no era esperado e todos se
alegraram muito. Marita recebeu-o chorando emocionada.
- Jos Maria! - exclamou. - Que bom v-lo! Como est magro! Farei com que
engorde! Conte-me tudo que aconteceu com voc. Por que veio sem avisar?
- Foram me dados trs meses de frias. Foi surpresa! O meu superior me
achou cansado. no avisei porque achei que eu e a carta chegaramos
juntos.
Riu e fez rir. no falou nada do que tinha acontecido, no queria
preocup-los.
Olhei a estalagem emocionado. Ela continuava linda e bem cuidada. Dolores
estava j mocinha e qual foi minha surpresa ao saber que estava namorando
Marquinho.
A famlia toda se reuniu para v-lo. Foi uma festa! Que bom rever meus
familiares! Todos estavam relativamente bem, porque no  muito fcil
viver encarnado e no ter problemas e dificuldades.
Falavam muito do namoro de Dolores e Marquinho. Marita amava seu afilhado
e no foi contra o amor dos dois, mas estava preocupada, Dolores poderia
ter filhos negros ou mulatos. Sabia que o preconceito era forte e temia
que a filha sofresse por isso, mas no falou nada. Os enamorados
resolveram que Jos Maria iria cas-los.
73
 Meu irmo - disse Dolores -, vamos antecipar nosso casamento para que
voc possa celebrar a cerimnia.
A data ento foi marcada, todos, contentes, passaram a ajudar nos
preparativos.
Marita tudo fez para que Jos Maria se alimentasse melhor, e ele at
engordou. Descansou, estava feliz com os familiares, que se desdobravam
para agrad-lo. Um dia, brincando com os sobrinhos, pensou Se Leonor no
tivesse morrido, teramos casado e eu estaria rodeado de filhos e talvez
at de netos. Minha vida teria sido muito diferente - suspirou. - no
quis casar com outra mulher, por isso resolvi ser padre e foi uma tima
escolha. Acho mesmo que vim a este mundo para ser um sacerdote, viver os
ensinamentos de Jesus. Sou feliz assim, porque fao o que me propus".
Amncio vinha sempre visitar Marita e pde ficar conosco uns dias. Tudo
estava bem, mas, ao ver minha filha Laurita me preocupei. Leonor me
esclareceu:
- Loureno, Laurita  uma sensitiva, uma pessoa que se comunica com os
espritos.
Naquela poca no usvamos os mesmos termos que usamos hoje sobre
mediunidade, mas para melhor compreenso, j que conhecemos as
designaes, vamos us-las.
- Sempre a achamos estranha e esquisita - respondi, recordando-a menina e
jovem.
- Esse intercmbio entre desencarnados e encarnados sempre existiu.
Muitas pessoas tm receio de dizer e muitos o escondem.  o caso de
Laurita, incompreendida pelos familiares, teve medo de ser tachada de
louca e escondeu o fato. Mas teve no noivo e esposo a compreenso e
passou a trabalhar com seus dons.
- Muito bom! - exclamei alegre. - vou conhecer como ela trabalha!
-  bom no se animar, poder ter surpresas. vou com voc.
Fomos  casa de Laurita. Minha filha morava com o esposo e cinco filhos
num stio bem perto da cidade. A casa era simples, porm confortvel.
Plantavam muitas ervas.


- So plantas que usam para chs e remdios
- esclareceu Leonor.
- Eles vendem essas ervas? - indaguei
- Sim, vivem disso. O esposo de Laurita, descendente de ndio, aprendeu
com os familiares a usar plantas como medicamento. Eles plantam, fazem
chs e remdios e os vendem.
Entramos na casa, Laurita estava costurando uma roupa e ao seu lado
estavam trs desencarnados que no nos viram e nem perceberam nossa
presena. E, ao ver um deles, levei um tremendo susto. Era como se me
visse no espelho.
- Que  isso Leonor? - indaguei assustado. - Por favor, me explique!
-  um desencarnado que se passa por voc. Como Laurita  vidente, ele
plasmou seu perisprito para ficar igual a voc.
- Minha filha aceita isso? - perguntei.
- Ela acredita que ele  voc. Laurita ajuda muitas pessoas, mas, por no
saber o certo, age indevidamente.
- no sabe porque no tem quem a ensine. no haver algum para ensinar
os encarnados? - indaguei preocupado.
- J est sendo preparado um grupo de espritos de boa vontade que
reencarnaro na Frana para um estudo srio e que deixaro escritos
ensinamentos para a gerao futura.
- Por que esse esprito se faz passar por mim?
- Logo que voc desencarnou, Laurita o quis perto, desejou muito. Para
que ela o recebesse, este desencarnado se fez passar por voc.
- Que absurdo!
Os quatro, Laurita e os trs desencarnados, conversavam:
"Papai - disse ela -, o senhor est contente com a visita de Jos Maria?
no o achou muito magro?"
"Estou contente sim, filha. Tambm o achei magro, certamente no deve se
alimentar direito no convento
- respondeu calmamente o que se fazia passar por mim. ele."
"Se ele no estranhasse, iria levar umas ervas para
"Jos Maria - falou o desencarnado - no iria querer,  melhor que eles
no saibam o que se passa com voc, todos acham estranhas estas
atividades. Esquea, filha, Marita ir aliment-lo e Jos Maria ficar
bem".
Cheguei perto dela e tentei lhe falar. Laurita percebeu minha presena,
porm espantou-se e indagou:
"Quem  voc? Que faz aqui?  do bem?"
"Sim, sou do bem - respondi. - Amo voc! Alegro me por me escutar. Sou
seu pai!
Papai?! no  mesmo! Por que me engana? Que faz aqui? Por que est
tomando a aparncia de meu pai?"
Quando ela disse isso, as trs entidades ficaram em alerta e olharam para
todos os lados e uma para a outra.
"Laurita, minha filha - insisti -, sou seu pai! Aqui estou para visit-la
juntamente com Leonor. Por que me repele?"
"Voc no  meu pai! no gosto que me engane. Papai! Papai Loureno, me
ajude! Afaste este enganador daqui!"
O desencarnado que se fazia passar por mim aproximou-se como que se
colando a ela, que suspirou aliviada, sentindo-se protegida. Afastei-me
preocupado e Leonor esclareceu:
- Ela est acostumada com ele, gosta desse esprito.
- Como ele consegue tornar seu perisprito igual ao meu? - perguntei.
- Desencarnados que sabem, fazem isso com certa facilidade, tomam a
aparncia que querem e infelizmente se fazem passar por outros
desencarnados.
- Pensei que isso acontecia apenas com desencarnados que quando vivos
foram importantes ou conhecidos - falei preocupado.
Leonor me abraou e esclareceu:
- Para Laurita voc  importante e conhecido. Os mdiuns devem conhecer
os desencarnados pelos fluidos, esses no so modificveis. Os bons
vibram o bem. Porm esse desencarnado no  mau, sabe que engana e que
est
76

agindo errado, mas por comodidade ou por no saber como agir certo,
continua enganando. H casos que so mais prejudiciais. Ele quer bem a
Laurita e no quer que nada de mau lhe acontea, mas h os que so
inconseqentes ou maldosos, enganam para se vingar, prejudicar ou fazer
os encarnados de tolos e lev-los ao ridculo. Os encarnados que no
querem ser enganados devem estar alerta, vibrar no bem e agir
corretamente, e no querer que determinado esprito, seja ele quem for,
seja seu companheiro, guia ou protetor. Os mdiuns devem fazer sua parte
e deixar que os trabalhadores do bem se encarreguem de determinar um
desencarnado para seu companheiro. Devem entender que no precisa ser
algum importante ou conhecido, se isso tiver que ser, deve acontecer
naturalmente. Mas para ns, espritos estudiosos e que almejamos
progredir, no julgamos ningum mais importante que outros. Todos os que
trabalham para o bem tm sua utilidade. Espritos conhecidos dos
encarnados normalmente esto incumbidos de muitas atividades e nem sempre
podem ser companheiros de trabalho de um encarnado. Laurita queria voc
para ajudla, e ele, para agrad-la, se faz passar por voc.
- Minha filha no me aceitou! - exclamei triste Como j disse, acostumou-
se com ele.
" Bateram na porta e Laurita foi atender. Era uma senhora que veio pedir
ajuda. Minha filha concentrou-se e o desencarnado que se fazia passar por
mim aproximou-se dela e aconteceu o intercmbio ou a incorporao. O
desencarnado falou:
"A senhora veio de novo pedir ajuda para o marido que bebe e est sem
dinheiro."
Laurita repetiu:
- Dona Margarida, a senhora veio aqui pedir para que seu esposo no se
embebede mais. Esto ficando sem dinheiro, no ?
Leonor explicou:
- O mdium transmite o pensamento ou os dizeres do desencarnado, porm
com a sua linguagem prpria.
Conversaram com a senhora, animaram-na e Laurita deu-lhe um remdio para
ser colocado na alimentao do
77




esposo, s que escondido dele, para que no se embebedasse mais. Terminou
dizendo:
- Sei que est sem dinheiro, a senhora me paga quando puder.
Leonor e eu fomos embora, mas passei a ir  casa da Laurita todos os
dias. Vi com tristeza que eles faziam remdios abortivos. Tornei-me
visvel aos trs desencarnados. O que se fazia passar por mim assustou-
se. Falei com eles tentando ser gentil, com o objetivo de me tornar
amigo.
- Sou o verdadeiro Loureno. Quem so vocs?
- Este  Pedro e este  Mico, e eu sou Loureno, o pai de Laurita -
respondeu ele, inquieto.
- no, no ! - respondi tranqilamente.
- Para ela sou e pronto!
- Por que fez isso? - indaguei-o.
- Por que no veio quando ela o chamou? Necessitou de voc. Por que no
veio ver sua filha antes? indagou-me olhando seriamente.
- no podia! no estava bem, estava perturbado quando desencarnei e tive
que ser socorrido. Depois fui estudar e em seguida fui fazer um outro
trabalho.
- Ela queria voc. De incio no me aceitou, e para que me aceitasse, me
fiz passar por voc. S quis e quero ajudar. Para mim pouco importa como
me chamam. Ela me d ateno e  isso que interessa. Mas tenho nome, me
chamo Joo.
- Joo - disse calmamente -, voc engana e isso no  certo.
- no se preocupe, gosto dela como filha e estou ajudando-a.
- Sei disso, mas no  certo se fazer passar por mim.
Foram muitas conversas, fiz de tudo para ser amigo deles, os trs
demoraram para me aceitar e fiquei contente quando passaram a me receber
bem. Ento passei a falar sobre o aborto:
- Se vocs se preparassem e contentes viessem reencarnar para continuar
sua aprendizagem e os futuros
 78

pais viessem a este lugar e recebessem a erva abortiva e os expulsassem
do corpo que lhes fora destinado no ventre materno, achariam bom?
- no! - responderam os trs a um s tempo
- no faam aos outros o que no querem para vocs Os trs ento passaram
a me ajudar a convencer
Laurita e o esposo a no mais vender as ervas abortivas que eram as mais
procuradas.
Mesmo depois de Jos Maria ter ido embora, pedi autorizao para visitar
mais meus familiares e resolver essa questo junto a Laurita. Foi-me
permitido.
Fiquei alegrssimo quando meu genro no plantou mais as ervas abortivas e
queimou as que j tinham colhido. Resolveram no fazer mais nada que
provocasse o aborto, alm disso, Joo passava queles que o consultavam
sobre o assunto, ensinamentos a favor da vida, do amor.
Joo aceitou ir estudar, ir para a colnia fazer o curso, o mesmo que
fiz, para depois voltar como ele mesmo e continuar sendo mentor
espiritual de Laurita. Despediramse emocionados.
"Laurita, devo partir - disse ele. - Daqui a uns meses vir um outro
amigo, o Joo, para continuar o trabalho que faz. Ficaro com voc Pedro
e Nico".
"Papai,  necessrio mesmo o senhor ir embora?"
- indagou ela com voz chorosa.
", minha filha, devo ir. no me prenda, por favor. Tenho necessidade de
ir aprender muitas coisas."
"Lembre que o senhor prometeu me visitar."
"no se esquea de que estarei diferente. Adeus!"
"no me esquecerei. Adeus!"
Laurita chorou e sentiu muito a falta dele. Joo estudou com vontade, fez
o curso, aprendeu muitas coisas e voltou com novas idias. Fizeram os
dois um bonito trabalho. Agora era Joo, o pai Joo. Os outros dois foram
um de cada vez para a colnia, gostaram de aprender. E um deles,
agradecido, me disse algo de que nunca me esqueci:
- Devemos caminhar sempre, crescer, progredir e auxiliar, nos tornar um
servo til, em vez de permanecer sempre precisando de auxlio.

 79 Passei a visitar sempre Laurita, ela me via e conversvamos por
momentos.
Minha filha alegrou-se muito com a volta daquele esprito e o aceitou
imediatamente como Joo. Ele voltou com a aparncia que havia tido na
ltima encarnao. Eram amigos, companheiros e amavam-se muito. Ela,
enquanto estava encarnada, no ficou sabendo que fora enganada.
Atualmente ainda ocorrem fatos semelhantes, mas sempre h como saber,
porque hoje temos os livros de Allan Kardec para nos orientar.
Mas voltemos  visita de trs meses de Jos Maria aos nossos familiares.
Em todo lugar que ele estava encontrava ocasio para ajudar. Era amado e
amava. Seus conselhos teis, ponderados e prudentes ajudavam muito os
familiares.
Chegou o dia do casamento de Dolores e Marquinho. A famlia se reuniu na
estalagem. Filhos, netos e bisnetos conversavam alegres e felizes. Eu
estava emocionado. Bidu comeou a falar de mim.
- Ser que o sr. Loureno iria gostar de ver meu Marquinho casado com a
caulinha Dolores?
- Ora, Bidu, certamente que papai aprovaria - disse Joaquim.
-  que eles podero ter filhos negros ou mulatos e sr. Loureno e d.
Marita tero netos negros.
- Sero netos - disse Jos Maria. - Papai no era racista.
- Isso no era mesmo - disse Bidu. - Que saudade tenho do sr. Loureno!
Falaram do passado, dos acontecimentos divertidos e alegres. Chorei, as
lembranas eram fortes e compreendi que estava ainda muito ligado a eles.
O casamento foi muito bonito. O casal ia morar na estalagem com Marita,
isso me deixou tranqilo, ela no ia ficar sozinha.
Trs meses se passaram rapidamente e Jos Maria e eu partimos de volta ao
convento.
Jos Maria foi com outros quatro padres para o interior do pas, para a
Provncia de Gois, uma vila onde ao que tudo indicava seria logo uma
bela cidade.
A viagem foi difcil, desconfortvel e longa. Jos Maria tornou-se amigo
de todos, mas principalmente de um jovem sacerdote, Lenizo. O superior
deles era um padre alemo gordo que gostava muito de se alimentar bem e
beber vinho. Era ambicioso e queria que seu colgio fosse o melhor e mais
bonito do Brasil. A planta que levavam era de uma construo grande e
muito moderna para a poca.
Tinham dinheiro para constru-lo, mas o superior contava com a ajuda dos
fiis, dos ricos fazendeiros da regio.
Jos Maria gostou do lugar, mas se entristeceu. Ali a escravido era
muito pior. No Rio de Janeiro e em So Paulo, os escravos eram melhor
tratados. No interior, nas fazendas, eram realmente propriedade dos
senhores que dispunham deles como queriam. Havia senhores bons e humanos,
mas havia tambm muitos senhores maus e os negros sofriam horrores.
Foi-lhes emprestada uma casa para se acomodarem at o colgio ficar
pronto. A casa era simples e isso aborreceu o padre superior.
- Merecamos casa melhor! - exclamou descontente.
-  uma das melhores da vila - disse Lenizo.
- Vamos nos acomodar da melhor forma possvel.
E assim fizeram. Instalaram-se na casa, que no era longe do local da
construo e imediatamente as obras comearam num terreno doado. Jos
Maria e Lenizo
81

dividiram o mesmo quarto e j comearam a trabalhar. O superior adquiriu
escravos e alguns outros foram emprestados para os trabalhos. Foi feito
um galpo ao lado e outro nos fundos. O do lado era sala de aula e o dos
fundos, as acomodaes dos escravos.
Perceberam que os escravos eram tratados rudemente e que trabalhavam
muito, isso deixou Jos Maria e Lenizo, que tinham as mesmas idias,
desgostosos. Passaram a conversar muito, trocando idias.
- Padre Jos Maria - disse um dia Lenizo -, no consigo pensar que Deus,
sendo justo como , permite que haja escravos. Ser mesmo que os negros
no tm alma? Sinto que tm e que so humanos como ns. Evito at de
pensar nisso, porque temo ficar ateu, como muitos que se dizem religiosos
ou como alguns cientistas estudiosos. Percebo que muitas pessoas
inteligentes que dizem no acreditar no que a nossa Igreja ensina e que
so tachados de hereges e ateus na verdade no o so, pensam diferente
somente. J conversei com um desses e ele negou, me disse que acredita em
Deus, mas O concebe diferente. Acredita num Pai Justo e bom, que nos ama
igualmente.
- Tambm penso assim - falou Jos Maria. - Acho que cada um sente o
Criador de um modo. H muitas maneiras de crer no Pai e tenho pensado que
todos esto certos. no h injustia, h aprendizado. Acho, Lenizo, que
vivemos muitas vezes num corpo de carne, que  esta veste, a carne que
morre, mas o esprito, a alma, continua seu aprendizado, voltando muitas
vezes  esfera fsica.
- Tem idias orientais? Acha ento que os escravos esto resgatando seus
erros, seus pecados? - indagou Lenizo interessado.
- no  mais justo do que acreditar no inferno?
- Isso ! Mas no devemos crer nisso. Lenizo - disse Jos Maria
calmamente -, como me explica o que vemos por aqui? Por que h tantas
diferenas?  prefervel pensar nessa possibilidade do que se tornar
ateu.
- Se esto resgatando seus erros no devemos interferir - disse Lenizo
srio.
82'

algo por ns, por eles e pelos que no momento so os seus senhores. Somos
todos irmos e temos tambm nossos erros a serem acertados. Ajudar a
todos os que erram e aos que sofrem  tarefa dos que querem ser teis e
dos que se tm por filhos do mesmo Pai. Somos todos irmos! Penso tambm,
Lenizo, que no s reparamos faltas aqui na Terra mas tambm aprendemos,
um esprito num corpo de negro' sendo escravo, ter muitas oportunidades
de aprender a ser humilde, trabalhador e dar valor  liberdade. Como o do
seu senhor de ser generoso e humano.
- E os que no aprendem? - perguntou Lenizo.
- Repetem as lies! - exclamou Jos Maria. - O senhor poder vir escravo
e sofrer o que fez os outros sofrerem no aprendizado doloroso.
- Que bom t-lo por companheiro, Jos Maria. no quero ser ateu e vou
pensar com carinho no que me disse. E que esse assunto fique s entre ns
dois.
Jos Maria sorriu. Era melhor mesmo. O padre superior, conhecendo suas
atividades anteriores, j o escalou como o padre dos pobres e j o tinha
avisado que no toleraria indisciplina.
Ter sido escalado para atender aos pobres deixou meu filho muito contente
e passou a dedicar-se a eles com muito carinho.
Jos Maria e Lenizo,  noite, comearam a ensinar os pobres. No comeo
havia poucos alunos, mas foram aumentando.
Meu filho conversava com muitas pessoas e parecia que por ali no havia
abolicionistas ou se havia temiam e no se declaravam. As pessoas mais
esclarecidas e de posses no queriam ficar sem mo-de-obra barata e os
monarquistas eram contra a libertao dos escravos, porque achavam que se
a abolio acontecesse os republicanos chegariam ao poder. E, entre os
padres, a maioria pregava que os negros no tinham alma e que no era
errado t-los como escravos, e isso amortecia muitas conscincias.
83



Com certeza Jos Maria iria logo arrumar novos companheiros
abolicionistas, e isso me preocupava, no queria que nada de mau lhe
acontecesse.
Meu filho estava inquieto, seu superior no usava de bondade para com os
negros que construam o colgio. Era autoritrio, enrgico e usava o
castigo para os que no o obedeciam. Era temido e, como todos os que usam
da violncia para serem obedecidos sempre so odiados, tambm o era.
um dia, os escravos que trabalhavam na obra se rebelaram e bateram em um
capataz. Isso aconteceu  tardinha e foram falar ao superior quando j
era noite. Este mandou que os escravos fossem trancados no galpo, e o
caso seria resolvido no dia seguinte.
"Meu Deus! O que fao para evitar o castigo que ser dado aos escravos?"
- pensou Jos Maria aflito.
O padre superior tinha no seu quarto um armarinho cheio de remdios e
venenos. Eu havia, sem querer bisbilhotar, olhado tudo e por isso sabia
de sua existncia. Tive uma idia e a dei para meu filho, que a captou e
a colocou em prtica.
O superior estava jantando, Jos Maria, s escondidas, entrou no quarto
dele, abriu o armrio e viu os frascos, os rtulos eram todos em alemo.
Meu filho entendia um pouco da lngua germnica, apontei-lhe o certo.
"Este, meu filho."
Ele pegou o frasco, leu e deduziu que seria o sonfero. Derramou umas
gotas no copo e voltou imediatamente  sala de refeies. Colocou o copo
sem que ningum percebesse na mesa e exclamou:
- uma mosca no seu copo! Troco-o para o senhor! Rapidamente despejou
vinho no copo que trouxera
e levou o outro para a cozinha. O padre superior exclamou:
- Malditas moscas!
Bebeu e comeu como sempre e foi dormir. Jos Maria ficou ansioso, no
conseguiu adormecer, levantou se cedinho. Como o padre superior no
acordou, foi para a construo no lugar dele. Reuniu todos no ptio.
- Aqui estou para resolver a questo do acontecido ontem  tarde. O padre
superior est indisposto e no pde vir.
84

Os oito capatazes e os escravos estavam atentos, o empregado que fora
surrado estava satisfeito esperando o grande castigo prometido e os
negros estavam temerosos
- Vamos esquecer o ocorrido - disse Jos Maria com firmeza. - Este
colgio ser um lugar onde muitos aprendero e no deve ser construdo
com dores e aflies O sr. Souza ser despedido. So muitas as queixas
contra ele, no trabalhar mais conosco. O sr. Manoel ficar responsvel
pela obra.
Jos Maria fez uma pausa. Todos se alegraram. O capataz despedido era mau
e o sr. Manoel era bondoso e ponderado. Os escravos o olharam
esperanosos, inspiravam piedade. Meu filho no temeu as conseqncias do
seu ato e continuou a falar:
- no haver mais castigos, o tronco ser queimado. A jornada de trabalho
diminuir. Comear s seis da manh e terminar s seis da tarde, e
tero uma hora de almoo. Aos domingos tero folga e podero visitar suas
famlias. A alimentao ser melhorada e podero comer mais. Hoje e
amanh vocs iro melhorar o galpo de vocs.
Os negros deram vivas, ficaram alegres e meu filho finalizou:
- Espero no ter problemas com vocs. no quero abuso. Se algum abusar,
ser devolvido. E se tiverem problemas, sejam quais forem, aqui virei uma
vez por dia para atend-los. Agora, ao trabalho um negro forte e jovem
aproximou-se timidamente dele.
- Pode falar! Que quer? - perguntou meu filho.
- Seu padre, tenho uma companheira l na fazenda e um filhinho de oito
meses. Ele estava muito doente quando vim para c. H tempo que no os
vejo, no sei deles e...
- Pode ir v-los! Tem trs dias para visit-los. O negro continuou de p
e meu filho disse:
- Que espera? Pode ir!
- Senhor, se chego l vou para o tronco. Batem primeiro para depois
verificar. Pensaro que fugi.
- Seu senhor sabe ler?     >
85

- Sabe, estudou na cidade grande - respondeu o escravo.
- Pois ento escreverei a ele. Espere aqui!
Jos Maria escreveu rpido uma carta dizendo ter dado permisso para o
escravo se ausentar e entregou ao negro.
- Deus lhe pague, sr. padre!
O escravo saiu correndo feliz. Jos Maria tambm ficou muito feliz.
Quando fazemos algum feliz, ficam em ns fluidos de bem-estar. Meu filho
voltou para casa, o padre superior dormiu o dia todo, acordou de tarde
indisposto e no quis fazer nada.
- Padre superior - disse Jos Maria -, cuidei de todos os problemas para
o senhor.
-  bom mesmo. Estou cansado, tenho trabalhado muito.
Passou dias acamado com crise hepatlgica e quando melhorou foi ver a
obra e soube do acontecido, mas no se zangou. O trabalho estava
adiantado e bemfeito.
- As pessoas felizes trabalham melhor- disse Jos Maria.
-  - falou ele -, acho que vou deixar voc conduzir o trabalho desses
negros. Voc os entende.
Alegramo-nos, eu, Jos Maria e os escravos, que passaram a ser tratados
com benevolncia. A obra foi sendo construda por alas.
Jos Maria recebia cartas dos familiares, mas elas demoravam muito, ele
ficava alegre com as notcias e se preocupava com todos.
Eu ia sempre v-los. Enquanto aconteceram os fatos narrados com Jos
Maria, na minha ex-casa, com os outros familiares, se passaram muitos
acontecimentos.
Marquinho adoeceu. Estava com pneumonia, piorou e veio a desencarnar.
Dolores sofreu muito, com 19 anos, viva e com dois filhos mulatos.
Marquinho revoltou-se ao saber que seu corpo carnal havia morrido, no
queria ter desencarnado e no aceitou o fato. Queixava-se de que era
jovem e com dois filhos pequenos necessitando dele. Amncio, Leonor e eu
tudo
86

fizemos no plano espiritual para ajud-lo. At o levei a Laurita, que
conversou com ele, mas tambm no adiantou. Ficou na estalagem, tentando
participar da vida familiar Sofria de dores no peito e fraqueza e no
queria ajuda e nem socorro. Comeou a atrapalhar a vida dos que amava.
Dolores por sua influncia passou a ser triste e desanimada e s vezes se
revoltava. Bidu ficou inquieto e um dos meus netos, filho dele, adoeceu.
- Marquinho - dizia-lhe eu -, aceite a mudana que houve na sua vida. Seu
corpo morreu, venha aprender a viver de outra forma. Est prejudicando os
que voc ama.
- no quero mudar! no queria morrer! vou ficar aqui. no prejudico
ningum. Eu os amo!
Pedro, o esprito que trabalhava com Laurita pegou-o e levou-o para um
Posto de Socorro em que ficou recolhido por alguns meses. Todos
melhoraram sem os fluidos de angstia dele. No Posto de Socorro, embora
Marquinho tenha sido tratado com carinho, no melhorou, no queria
aceitar o fato de ter seu corpo fsico morto e no podia ficar l por
mais tempo no querendo. Todos temos o nosso livrearbtrio que 
respeitado sempre. Ento ele voltou. Mas no foi mais aceito em casa. Os
familiares no estavam dispostos a sentir seus fluidos negativos.
Marquinho sentiu-se rejeitado e muito infeliz. Novamente tentei convenc-
lo.
- Marquinho, venha comigo!  to triste v-lo assim. Amamos voc e
queremos que esteja bem.
- Mingum me ama, no me querem por perto.
- A vida continua. no  s voc a sofrer com a situao. Dolores to
novinha tem responsabilidade de criar os dois filhos. Ela no pode parar
e ficar s chorando por voc. Seus filhos so pequenos e merecem ser
felizes, e na idade deles  natural no se lembrarem de voc. Marita e
Bidu j esto velhos, sofrem muito sua falta e se teimar em ficar aqui,
acabaro doentes. Sua revolta no mudar nada, sofre e est fazendo
sofrer.
- Que tristeza! - e chorou desesperado.
Mas acabou por entender e pudemos, Amncio e eu, lev-lo para o Posto de
Socorro, onde ficou internado
87

um bom tempo, primeiro se recuperando e depois aprendendo.
Fazia dois anos que Marquinho havia desencarnado e dois meses que havia
sido levado para a colnia.
Adelino, meu filho que servia o exrcito, tendo licena, foi para casa e
levou com ele um amigo. Marita alegrou-se e recebeu bem o amigo do nosso
filho, que era um jovem louro, muito bonito, natural de um estado do sul.
Ele enamorou-se de Dolores, que tambm correspondeu ao seu amor.
Resolveram se casar. Marita entristeceu porque eles iam morar no sul do
pas e ela ficaria longe da filha e dos netos.
- Dolores - disse Marita -, deixe os meninos comigo.
- Mame, no posso me separar dos meus filhos. Meu noivo os aceita,
prometeu am-los como filhos dele.
- Eles so mulatos! Temo que sejam desprezados. Voc ter outros filhos
que sero brancos e louros.
- Defenderei meus filhos! no posso deix-los, a senhora est velha, j
trabalhou demais e criou muitos filhos. Seremos felizes, amo meu noivo e
ele  muito bom.
Casaram e se mudaram. Joaquim deixou a estalagem com um de seus filhos e
veio com a esposa morar com Marita. Ele e Bidu passaram a cuidar de tudo.
Minha esposa ficou muito triste com mais essa separao. Ao visit-la a
encontrei reclamando:
"J perdi tantos entes queridos. Eva, minha prima Dolores, Amncio,
Leonor, Loureno, Marquinho e agora minha filha Dolores e os dois netos
partem para longe. Sinto que no os verei mais."
"Marita" - disse consolando-a -, voc no perdeu, porque aqui continuamos
a am-la. Quando voc desencarnar poder rever Dolores e os meninos".
Ela s sentiu meus fluidos de carinho, conformouse e tentou se sentir da
melhor forma possvel.
Dolores seguiu com o esposo para o sul. Tiveram problemas, mas superaram.
Amavam-se e foram felizes. Tiveram mais filhos e Marquinho reencarnou em
um deles. Meu afilhado voltou para um novo recomeo perto daqueles que
amava.
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papai e eu a
Passaram uns meses, Leonor foi me visitar e me ps a par dos novos
acontecimentos.
- Loureno, Marita desencarnou, papai e eu a levamos para a colnia.
- Por que no me chamou? - indaguei sentido
- no vimos necessidade de cham-lo. Mame teve uma morte fsica
repentina. Aceitou a desencarnao est bem e espera-o para uma visita.
Depois de trs dias fui visit-la, estava ansioso para abra-la e dar as
boas-vindas. Encontrei-a com Amncio. Os dois conversavam contentes
sentados num banco no jardim. Olhei-os comovido. Eles se amavam.
Poderiam, para os encarnados, parecer um estranho casal. Amncio, de
aparncia jovem e forte, Marita, com aparncia de idosa, mas para os
desencarnados isso  normal. Para o amor verdadeiro a aparncia no tem
importncia. A ligao pelo amor espiritual  a verdadeira, o sentimento
real est alm do externo,  querer bem pelo que o outro  . O afeto
espiritual  durvel para todo o sempre. Aproximei-me.
- Marita, seja bem-vinda!
Marita sorriu timidamente. Estava diante de seus dois esposos. no a
deixei encabular-se. Coloquei minhas mos no ombro de cada um deles
aproximando-os mais e disse emocionado:
- Meus amigos!
Olhamo-nos com ternura. Como  bom ter amigos!  possuir um grande e
valioso tesouro.  ter algum para contar nas horas incertas e nunca
sentir-se sozinho. E como  bom participar com eles dos momentos felizes.
Foi para mim muita felicidade abraar meus amigos e saber que estavam
melhores do que eu. A amizade  a luz da existncia. Amncio falou:
- Loureno, devo-lhe muito. Nunca esquecerei que voc criou meus filhos!
E nem o que Marita, mulher corajosa, fez por mim.
- Tambm sou grata - disse Marita. - Voc, Amncio, foi um marido
maravilhoso, e voc, Loureno, muito me ajudou.
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- Eu tambm quero lhes agradecer - falei. - Marita me ajudou a criar meus
filhos, cuidou de mim com muito carinho quando estive doente, e voc,
Amncio, me socorreu e...
- Chega! - exclamou Leonor sorrindo. - A lista de agradecimentos de cada
um me parece enorme. J fez muito pelo outro! Alegremo-nos! Vocs s
lembram dos benefcios que receberam e me parecem esquecidos dos que
fizeram. Isso  maravilhoso! Amo vocs!
Abraamo-nos felizes.
Sempre nos encontramos e nossa amizade se solidificou cada vez mais.
Amncio ficou junto com Marita. e eu continuei com Jos Maria. 90


Jos Maria comeou a sondar as pessoas em confisses e em conversas e
logo encontrou alguns ompanheiros e passaram a se reunir s escondidas.
No comeo era ele e mais dois, Firmindo, o dono de uma taberna, e Josias,
jovem filho de um rico fazendeiro, que estudara no Rio de Janeiro e
achava injusta e cruel a escravatura. Josias era corajoso, mas no
gostava de trabalhar e se envolvia muito com mulheres. O grupo cresceu
aos poucos. Todos temiam, ali a lei era a dos senhores ricos e eles eram
contrrios  abolio e defendiam suas idias com violncia.
Com uma parte do colgio pronta, mudaram-se para l e vieram mais dois
padres para lecionar. Foi dado a cada um deles um quarto. O de Jos Maria
era pequeno, mas ele logo o tornou agradvel. Com muitos afazeres ele e
Lenizo passaram a conversar menos e o jovem padre no ficou sabendo do
envolvimento do meu filho com o grupo abolicionista.
O padre superior estava sempre atento a todos, mas principalmente ao meu
filho, pois este no perdia uma oportunidade de falar sobre suas idias
quanto  igualdade dos seres humanos.
Na festividade da Semana Santa, Jos Maria, no final de uma das
procisses, fez um sermo que desgostou os senhores ricos e tambm o
padre superior, que o castigou. Deixou-o sem comer por trs dias. Jos
Maria obedeceu, mas seu organismo fraco e magro sentiu a falta de
alimentos. Ele no se queixou, aproveitou para orar e meditar no seu
quarto, mas tambm foi proibido de ir a outras festividades e no falaria
mais em pblico.

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- Que castigo injusto! - disse-lhe Lenizo ao visitlo, compadecido de ver
o amigo preso em seu quarto. Mas Jos Maria o consolou:
- Se muitos negros passaram por isso e s vezes at amarrados no tronco,
tambm posso passar.
Era costume ali os senhores levarem seus escravos para serem castigados
num tronco, chamado pelourinho, erguido na praa em frente  igreja. E
muitos dos castigados ficavam l presos durante a noite ou o dia todo.
no era difcil solt-los, mas havia um grande problema, onde escond-
los? Que fazer com eles aps serem soltos? Se os tirassem do tronco, eles
seriam novamente capturados e duplamente castigados. A situao deles
ficaria pior. Era preciso urgentemente arrumar um lugar para escond-los.
Jos Maria achou a soluo.
Havia, numa fazenda, uma casa ao lado de uma gruta que foi abandonada por
ter fama de ser mal-assombrada. O fazendeiro dono daquelas terras veio
conversar com o padre superior, que chamou Jos Maria para resolver a
questo.
- Padre Jos - disse o superior -, o sr. Silva veio em busca de auxlio,
ele mesmo lhe falar sobre o assunto.
- Nas minhas terras h uma casa, onde meu pai morou, que assombra a
todos. Queria pr para morar l um empregado para que vigiasse aquele
pedao da propriedade, mas ningum pra na casa ou fica mais que uma
noite. Eu mesmo j vi e ouvi coisas estranhas. Faz barulho na casa, vem-
se vultos e so jogados nas pessoas objetos que no se sabe de onde vm.
O padre superior disse que o senhor poder ir l e rezar para que isso
no acontea mais.
E no outro dia, logo cedo, fomos, Jos Maria e eu, para a casa
assombrada. O lugar era bonito, no longe da cidade, com gua perto da
casa e um grande pomar. A casa no era grande, mas de boa construo.
Jos Maria, ao entrar, arrepiou-se todo. E eu os vi! L havia muitos
negros desencarnados, ex-escravos que estavam ali a vagar. Meu filho
sentou-se para descansar, viera a p e estava cansado, e eu conversei com
os negros:
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- bom dia! Como esto passando? Permitem que descansemos um pouco?
- Quem  este padre? Ele  bom ou mau?
- bom! - exclamei. - Jos Maria  um padre que ama muito.
- Jos Maria? - indagou um deles. - O padre bonzinho que est lutando
para libertar os negros?  um prazer t-lo aqui!
A hostilidade acabou e Jos Maria sentiu-se bem e ps-se a orar. Os ex-
escravos, em esprito, fizeram fila e foram pedir a sua bno. Chegavam
perto dele, ajoelhavam e como meu filho estava orando, emanaes
agradveis iam at eles. Aproveitei para falar aos moradores
desencarnados do local:
- Por que esto aqui?Esperamos a volta do coronel, do nosso ex-senhor.
- Para qu?
- Para faz-lo sofrer como sofremos - falou um deles, e todos
concordaram.
- Querem se vingar? - falei com delicadeza, temendo ofend-los. - A
vingana no  boa companhia. Ningum  feliz vingando-se. Veja o padre
Jos, ele  feliz, e como  agradvel ser bom. Perdoem e deixem que eu os
ajude.
- Agradecemos sua inteno de ajudar-nos, mas no aceitamos. J
decidimos, ficaremos aqui, fizemos um pacto de honra e vamos continuar
assombrando os brancos que se aproximarem dessa casa.
- Mas a vida continua - disse-lhes -, e esto parados  margem dos
acontecimentos. Preocupados com o exsenhor esquecem de vocs mesmos, de
fazer algo para melhorar suas vidas.
Olharam-me desconfiados, mas continuei:
- Existe a reencarnao, vocs no foram escravos por acaso e podero
nascer novamente escravos se negarem-se a aprender a lio. Somos donos
dos nossos atos, esqueam o ex-senhor, ele dever colher de sua prpria
plantao. Convido-os a conhecer uma outra forma de viver.
Nada consegui. Jos Maria ia embora, no vira nada de assombrado. Tive
uma idia e falei aos moradores da casa:
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- Vocs permitiro que escravos foragidos se escondam aqui?
- Claro! - responderam. - Ajudaremos nossos irnos de raa.
Ento dei a idia a meu filho:
"Filho, aqui h escravos, negros que desencarnaram e que ainda se sentem
escravos e que no querem brancos por aqui. Se continuar a fama da casa
assombrada, os negros foragidos podero se esconder aqui at poderem ir
para longe."
Jos Maria saiu dali feliz. Foi conversar com o fazendeiro. Constrangido,
disse ao sr. Silva:
-  melhor deixar a casa vazia. L esto demnios terrveis que no
querem sair. Se expuls-los podero ir por toda a fazenda.
- Deus me livre! Se  assim, deixe-os l, s na casa. Ficar abandonada!
Querendo ajudar esses escravos desencarnados, pedi e obtive permisso
para tentar auxili-los. Fiquei muito contente com essa tarefa. Continuei
indo l, tornamo-nos amigos e passamos a conversar muito. Tambm levei
amigos da colnia para falar com eles. Soube do ex-senhor deles, havia
reencarnado, mas no lhes disse para que no passassem a obsedi-lo.
Aos poucos fui conseguindo elucid-los e foram querendo ajuda. Levei-os
para o Posto de Socorro da regio.
Na prxima reunio do grupo, meu filho falou aos companheiros.
- Temos um lugar seguro tanto para nos reunir como para esconder os
escravos que libertarmos. A casa assombrada! Fui l e no h nada,
comentei que havia demnios para que todos temam e ningum v at l.
- Acho - disse um deles - que no devemos ter reunies l, somos 11 e se
formos muito na casa podero desconfiar, devemos deix-la s para
esconderijo.
- Amanh vou l - disse Josias -, deixarei roupas e alguns alimentos na
casa para que o fugitivo tenha o que vestir e o que comer. Creio que  um
timo esconderijo. Agora, ao soltar algum escravo, poderemos mand-lo
para
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l e quando desistirem de captur-lo poderei ir at a casa e dar a ele
dinheiro para continuar a fuga e ensin-lo com se vai ao quilombo mais
prximo.
Todos gostaram da idia. Aps conversarem sobre outros assuntos, se
despediram. O grupo se reunia cada vez em um lugar a cada trs meses.
Preferiam que fosse ao redor da cidade, em grutas, na floresta ou em
cabanas abandonadas. Josias era o nico que dispunha de dinheiro Ele dera
ao meu filho roupas comuns para que vestisse quando sasse do convento
para ir s reunies.
Acompanhei-o at o convento, depois fui  casa assombrada avis-los da
visita:
- Companheiros, aqui ir ser esconderijo de escravos foragidos. Amanh o
senhor Josias vir aqui trazer roupas e alimentos para que eles possam
alimentar-se e vestir-se enquanto estiverem aqui, at que tenham como
fugir.
- Pode ir tranqilo, sr. Loureno. no faremos nada contra o sr. Josias e
tudo faremos para proteger os negros que aqui vierem se esconder.
Josias foi no outro dia cedo e eu o acompanhei, os escravos desencarnados
ficaram quietos, s observando.
um ms se passou. Jos Maria ia dar uma aula quando ouviu os comentrios
de alguns alunos no ptio:Um negro foi preso no tronco da praa!
- Receber, ao amanhecer, cem chicotadas!
- Cem? - indagou meu filho assustado. - Ir morrer, com certeza. Que fez
para merecer esse castigo?
um dos alunos respondeu:
- Dizem que ele foi indelicado com sua sinh...
- Que mexeu com ela... - falou um outro.
Jos Maria ficou apreensivo. Deu a aula e foi para seu quarto pensar no
que faria para ajudar o escravo prisioneiro. Quando soube da notcia era
de tarde, agora j escurecia e ele queria achar um jeito de libert-lo.
Ficaria preso a noite toda e s seria castigado pela manh. Muitas
pessoas iriam ver o flagelo. Meu filho no tinha como falar com nenhum
dos seus companheiros, e Josias estava na fazenda e talvez nem ficaria
sabendo. Resolveu agir sozinho,
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planejou ir aps as duas horas da madrugada, l daria um jeito de
imobilizar o guarda e soltar o escravo. no dormiu, estava ansioso
demais. Ma hora que marcou, saiu do quarto, cauteloso, e foi para os
fundos do convento. Temi por ele e o acompanhei atento. Preferia v-lo
dormindo, mas o compreendi, estava agindo certo, ainda mais porque sabia
ser imerecido o castigo. Fui ver o escravo no tronco e li seus
pensamentos. Ele era inocente, por intriga de sua sinh ia ser duplamente
injustiado, pois, mesmo que estivesse errado, ningum  modificado com
violncia.
Jos Maria vestiu as roupas que Josias lhe deu e levou a corda que havia
escondido no quarto. No ptio, subiu numa rvore e por ela chegou ao
muro. O convento tinha muros altos, mas ele sempre fazia isso para sair
sem ser visto. Amarrou a corda num galho da rvore, jogou-a para o lado
de fora e desceu por ela. Escondeu-a entre os galhos e caminhou para a
praa. Viu que o guarda estava perto do escravo, procurou ento algo para
desarmar o vigia. Achou um pedao de pau e, sempre com cuidado para no
ser visto, se aproximou do vigilante por trs e com toda a fora golpeou-
o na cabea. O homem caiu desmaiado. Rapidamente aproximou-se do escravo
preso e, enquanto o soltava, falou:
- Fuja e se esconda na casa assombrada, a do lado da gruta. Fique quieto
l at que as buscas terminem. Algum ir l para ajud-lo. Ele assobiar
trs vezes,  um amigo que lhe dar instrues para ir embora para longe.
no tenha medo da casa, ela no  assombrada. Isso foi inveno para
ningum ir l. V com Deus! Corra!
O libertado disse com medo e emoo:
- Deus lhe pague! Correu.
1    - Corra tambm! - disse aflito para meu filho.
Ele ia correr, mas preocupou-se com o pobre vigia e aproximou-se dele
para verificar se estava bem. O guarda estava acordando. Bandido! -
exclamou irado.>     Corra, Jos Maria! Corra!"-gritei. Ele ento
correu, o guarda deu tiros e um deles
atingiu meu filho na coxa direita. Mesmo ferido continuou
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correndo. Ao chegar perto do convento, percebeu que sangrava muito. Tirou
a camisa e a enrolou na perna estan cando o sangue. Foi at o local onde
deixara a corda e cautelosamente foi para seu quarto.
O guarda gritou e com os tiros acordou e alarmou todos os habitantes da
cidade. Os homens levantaram e saram  procura do bandido que soltara o
escravo Seguiram o rastro de sangue, e como este acabava no muro
concluram que o bandido devia ter entrado no convento '
Jos Maria entrou no seu quarto, amarrou bem a perna, trocou de roupa,
escondeu a corda, colocou a roupa suja de sangue embaixo do colcho e
fingiu dormir.
Muitos homens armados entraram no convento e com ordem do padre superior
revistaram tudo. Chegaram ao quarto de Jos Maria.
- Que foi? O que aconteceu? - indagou ele fingindo estar acordando.
- no disse que padre Jos  um dorminhoco?
- falou Lenizo, que acompanhava-os.
Os homens deram uma olhada e saram. Jos Maria suspirou aliviado. Quando
tudo ficou quieto, ele levantou-se, desenrolou a camisa da perna e
examinou o ferimento. A bala entrou por um lado e saiu pelo outro, mas
no provocou fraturas.
Eu fui  colnia pedir ajuda e veio comigo um mdico desencarnado para
auxili-lo. Jos Maria lavou a ferida, desinfetou-a com aguardente de uma
garrafa que ganhara h muito tempo e guardara no armrio, e enfaixou
novamente a perna. O mdico que me acompanhava deu-me remdios que eu
deveria colocar diversas vezes na gua que ele tomaria.
- Loureno - disse o mdico -, Jos Maria ficar bom! Se precisar de mim,
chame que virei.
Jos Maria sentiu muitas dores, levantou-se como de costume e fez todo
seu servio como se nada tivesse acontecido, no pde nem mancar ou
expressar sua dor. Pedi a ele que no fosse  escola  noite, atendeu-me
e disse a Lenizo:
- Lenizo, no devo ir por uns dias s aulas da noite, me substitua, por
favor.
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Lenizo preocupou-se com ele, no perguntou nada, mas entendeu ser ele o
libertador do escravo. - Sente algo?
- no, estou bem, mas devo repousar um pouco. no s Lenizo o substituiu
como tambm ajudou-o
nas outras tarefas do convento.
Jos Maria agiu como sempre e ficou atento aos comentrios, que foram
muitos.
- O guarda - disse um aluno - falou que quem o atingiu foi um sujeito
grande e forte.
- Mas ele ficou ferido - disse um outro. - Quem ser? Deve ser algum de
outra cidade. Aqui no apareceu ningum ferido.
- O fato  que o sujeito sumiu e o negro tambm
- falou um para o outro rindo.
Jos Maria alegrou-se, o escravo conseguira fugir.
O escravo, ao ser libertado, correu e foi para a casa assombrada, temeu,
mas como os desencarnados que l vagavam prometeram, nada fizeram contra
ele. Quando as buscas terminaram, Josias foi l, levou dinheiro e roupas
para ele e o ensinou o caminho para ir ao quilombo mais prximo. O
escravo fugiu com sucesso.
Leonor veio visitar Jos Maria e eu lhe contei todo o acontecido. Ela
aproximou-se dele, que apesar das dores tentava dormir, e com muito
carinho lhe deu um passe que o fez adormecer. Observei-a curioso e
indaguei:
- Vocs j estiveram juntos em outras existncias?
- J - respondeu Leonor sorrindo.
Fez uma pausa, pedi com o olhar para que me contasse sua ligao com ele.
Leonor atendeu-me.
- Jos Maria e eu sempre nos quisemos bem, j estivemos encarnados muitas
vezes juntos como amigos, irmos, h trs encarnaes fomos marido e
mulher. Vivemos muito felizes, numa harmonia que poucos casais encarnados
conseguem ter. Entretanto ele desencarnou primeiro e eu no consegui
viver sem ele. Triste, angustiada, no quis lutar pela vida e fui
definhando, antecipei a morte do meu corpo. Ele tentou me ajudar
mostrando o quanto estava errada, mas no o compreendi. Novamente
voltamos
 juntos, fui me dele na sua ltima encarnao, naquela em que foi o
padre que o ajudou. Novamente no me conformei com sua desencarnao,
ainda mais quando soube o muito que sofreu preso e condenado pela
Inquisio. Minha dor foi muita, e novamente antecipei minha
desencarnao com o desnimo, a tristeza e a saudade.
"Nessa fui eu que desencarnei primeiro, sofri no comeo com a separao.
Cansada de padecer' por esse motivo, quis mudar, com estudo compreendi
tudo. Tive que voltar trs vezes para aprender que o apego e a dor so
inseparveis. A dimenso da dor tem o exato tamanho do apego que
tivermos. A maioria de ns tem um problema, nossos conhecimentos tericos
no tm fora suficiente para realizar uma mudana verdadeira no nosso
estado interior. Conhecer teoricamente no  suficiente para que haja um
saber vivencial. Talvez por isso  que a vida nos d a oportunidade de
voltarmos vrias vezes s mesmas situaes, at que assimilamos a lio
de que nada nos pertence em particular e, portanto, no h razo para o
apego. Devemos amar a tudo como um todo e a este amor nos dedicar com
toda a fora de nossa alma, porque somos parte desse todo. Loureno, para
ultrapassar o apego foi preciso perder o ser amado vrias vezes, at que
aprendi a amar sem me identificar com o ser amado. Amar sem tempo nem
espao. Simplesmente amar."
Leonor calou-se. Compreendi-a. Cuidamos de Jos Maria. Seu ferimento
cicatrizou sem problemas e logo estava bem. Dois meses depois, quando foi
mandado visitar um fazendeiro, conseguiu levar sua roupa suja de sangue,
a que usou quando libertou o escravo, e jog-la no rio.
Todos evitavam de passar perto da casa assombrada e ela se tornou um
timo esconderijo.
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Fizeram   algumas modificaes no       convento, que ainda estava sendo
construdo,
Lenizo novamente dividiu o quarto com Jos Maria.
Estavam os dois trabalhando muito, meu filho,
preocupado com o grupo e Lenizo, distante. Percebemos
logo seu ar distrado e melanclico. Jos Maria indagou
preocupado:
- O que est acontecendo com voc, meu amigo? Est distrado. Posso
ajud-lo?
- no est acontecendo nada de especial, estou saudoso de casa,  s
isso.
Lenizo estava h anos longe dos seus familiares. Jos Maria fingiu
acreditar, no queria ser indiscreto. Eu soube o que acontecia. S de
observ-lo vi que pensava com muito amor numa jovem. Estava apaixonado e
era correspondido.
Lenizo ensinava trs vezes por semana,  tarde, a filha de um rico
fazendeiro da regio. Ele ia  fazenda e dessas visitas os dois jovens se
enamoraram. Era um amor grande e honesto. O jovem padre no sabia o que
fazer e estava vivendo um grande conflito: amava a jovem Maria, era
correspondido, mas amava tambm o sacerdcio a que se dedicava h anos
com tanta devoo. Todo conflito traz sofrimento, e ele sofria.
Dias depois, Lenizo chegou aflito da fazenda e pediu para conversar com
meu filho. Foram para o quarto e o jovem padre falou preocupado:
- Padre Jos, estou enamorado! Sempre tive vocao para o sacerdcio, ou
pensava ter. Deixei meus pais, irmos, a famlia, para seguir minha
vocao e prometi a mim mesmo que seria um bom padre. Porm, quando o
100
padre superior me escalou para ensinar a filha de um fazendeiro, fui de
boa vontade, s que o cupido nos pregou uma pea. Estamos apaixonados!
Meu conflito  grande e estou sofrendo muito. no devo am-la como mulher
e alm disso os pais dela nunca iro concordar, eles tm planos para ela,
querem cas-la com um senhor rico Hoje a governanta nos surpreendeu
abraados. Acho que fomos descobertos! Que fao?
- Calma, Lenizo! Deixe-me pensar sobre o assunto. Acharemos a soluo
juntos. Agora tenho que dar uma aula. A noite conversaremos.
Quando terminou a aula, ao sair da classe, Jos Maria viu o fazendeiro, o
pai de Maria, a enamorada de Lenizo, sair do convento. Parecia normal,
despreocupado. Meu filho perguntou ao empregado que estava na frente do
convento:
- O que este senhor veio fazer aqui a esta hora?
- Veio ver o padre superior. Chegou nervoso, irado e est indo embora
calmo. no sei o que conversaram...
Meu filho desconfiou que algo aconteceria e foi  procura de Lenizo e,
aps meia hora, o encontrou no quarto deles.
- Padre Jos - disse o jovem padre -, estou voltando do gabinete do padre
superior, ele me chamou para conversarmos. O pai de Maria veio aqui
reclamar de mim para ele. A governanta, como previmos, contou-lhe tudo,
que nos viu abraados.
Lenizo calou-se por um instante, sentou-se, desabotoou a batina na altura
do pescoo, e depois continuou a falar, passando a no no estmago.
- Padre superior pediu-me para no ver Maria por um tempo, disse-me que
vai pedir ao Papa minha dispensa do sacerdcio. O pai de Maria no quer a
filha envolvida com padre. Mas acho que nem com pobre e...
Jos Maria escutava de cabea baixa, achando estranha a atitude do padre
superior. Tinha certeza de que ele ia esbravejar, castigar Lenizo. Como o
jovem padre calou-se novamente, olhamos para ele. Apavoramo-nos ao v-lo,
estava vermelho, suando, passava mal. Meu filho indagou:
101

- Tem mesmo certeza de que o padre superior no lhe tratou mal?
- Tratou-me com carinho - respondeu Lenizo com dificuldade. - At me
ofertou um licor.
Jos Maria arregalou os olhos.
- Licor? Veneno? Voc tomou veneno?
- no! Nunca iria me suicidar... Sinto-me mal! Que dor!
Jos Maria ajudou-o a se livrar da batina, deu-lhe gua e o forou a
vomitar.
- vou buscar ajuda!
Abriu a porta e Lenizo pediu:
- no me deixe s, quero me confessar. Um padre ia passando no corredor
e meu filho pediu: ''       - Padre Marcos, corra e busque padre Afonso.
V  cozinha e traga muito leite. Padre Lenizo est passando mal! Corra,
por favor!
Padre Marcos saiu apressado. Lenizo pegou firme na mo de Jos Maria.
- Absolva-me dos meus pecados! Amei uma mulher e jurei fidelidade 
Igreja. Mas meu amor foi casto. Eu...
Achando que no deveria escutar uma confisso, fui para o corredor, me
concentrei e chamei o mdico da colnia que havia me ajudado quando meu
filho se feriu. Ele veio logo e entramos no quarto. Lenizo segurava a mo
de Jos Maria e falava com dificuldade, o sangue brotava dos seus lbios.
- Padre Jos, se o senhor conseguir falar com Maria, diga-lhe que a amei
muito, mas que  para ela continuar vivendo e aceitar com resignao
nossa separao. Acho, meu amigo, que no nascemos para ficar juntos.
O meu amigo mdico examinou-o e concluiu:
- Foi envenenado!
Chegaram padre Marcos e padre Afonso. Este tinha alguns conhecimentos de
medicina e ps-se a examinar Lenizo, que j agonizava.
- Est morrendo! no tenho como ajud-lo!
- exclamou padre Afonso. - 
O mdico da colnia confirmou:
102

_ De fato, Lenizo est desencarnando. Pedirei para socorristas virem
ajuda-lo. Os socorristas no demorou, dois espritos vieram, entraram no
quarto, deram passes em Lenizo, que foi se acalmando
Dois ajudantes da cozinha vieram com o leite Padre Afonso indagou:
- Para que isso? Padre Lenizo est tendo um ataque do corao.
- Foi o padre Jos que pediu... - respondeu padre Marcos.
Padre Afonso olhou de forma severa para Jos Maria e eu interferi, pedi
mentalmente para meu filho responder o que achei que convinha no momento.
Ele me atendeu.
-  que acho leite bom para tudo...
- De fato  bom, mas no para o padre Lenizo nesse momento.  melhor lhe
dar a extrema-uno.
Padre Marcos deu-a, Jos Maria ficou olhando-os, orou com f, pediu a
Deus ajuda ao amigo. Lenizo expirou, seu corpo fsico morreu. Os dois
socorristas e o mdico adormeceram seu corpo perispiritual, efetuaram o
desligamento e o levaram para a colnia.
Providncias foram tomadas, padre Marcos limpou o cadver e o vestiu,
levaram-no para a capela para ser velado. Jos Maria ficou quieto
observando. Sentiu muito a morte do amigo e mais ainda o acontecimento:
Lenizo foi assassinado, envenenado pelo padre superior, e padre Afonso
certamente sabia e se omitiu.
"Deveria tambm me omitir? Que atitude devo tomar? - indagava-se. - Que
devo fazer?"
O enterro foi no outro dia s doze horas. O padre superior celebrou a
missa e encomendou o corpo. Estava tranqilo como sempre. E a morte de
Lenizo foi dada como um mal sbito, talvez alguma enfermidade do corao.
Se algum desconfiou, calou-se. Jos Maria teve certeza de que foi o
padre superior quem o envenenou. Sabia que ele tinha frascos com venenos.
Ele era alemo e na Europa, em alguns lugares, isso j havia ocorrido.
Meu filho, na sua encarnao anterior, tambm como padre, presenciara e
soubera desses fatos e sentia nesta que isso acontecia.
103

Teve mais d do padre superior e resolveu ajud-lo: iria conversar com
ele alertando-o sobre o seu erro. Mas este no queria conversa e evitava
meu filho.
Padre superior estava sempre acompanhado por duas entidades. era alemo e
o outro, um ex-escravo, e foi com este que conversei:
- Senhor Loureno - disse ele -, no interfira! O senhor e o padre Jos
no tm nada que ajudar este monstro. Fao parte de um grupo, somos
muitos que o odimos e estou aqui para vigi-lo, anotar tudo que faz,
estamos esperando a hora certa para nos vingarmos.
- E o outro? - indaguei.
-  amigo dele, o protege! Se afinam, so semelhantes.
Jos Maria aproveitava todas as oportunidades para dizer os ensinamentos
de Jesus ao padre superior, que os sabia de cor, porm no os vivenciava.
Procurei saber o que de fato aconteceu. O pai de Maria veio reclamar de
Lenizo, exigiu que ele sumisse dali, que fosse transferido e que no
voltasse mais  sua casa, ameaando no ajudar mais a Igreja se isso no
acontecesse. Padre superior achou que o melhor modo de resolver o
problema seria que o jovem padre morresse, assim no iria sujar o bom
nome do convento, pois sentiu que Lenizo no ia desistir de Maria e que
realmente a amava. Resolveu eliminar o mal pela raiz.
O esprito do alemo que o acompanhava era tal qual o padre superior:
pensavam da mesma maneira, deliciavam-se juntos comendo e bebendo muito.
Logo aps algumas tentativas de Jos Maria, ele aproximou-se de mim e
falou autoritrio.
- Impea o seu protegido de falar bobagens ao meu amigo. no o quero por
perto! Se continuar, sobrar para ele!
Ameaou e ficou me olhando, sorrindo cinicamente.
- Senhores - disse educadamente -, vivem de modo errado e s estamos
tentando alert-los.
- Modo errado? Defendemos nossa Igreja! no deve haver lugar para padres
infiis aqui. Padre Lenizo queria
104

abandonar a Igreja para tentar se casar! Ficar com uma mulher! Trocar a
Igreja por um ser inferior! no poderamos correr o risco de um
escndalo.
- Violaram um mandamento. no matar! - disse
- Para toda obra nobre h um preo! no violamos nada. Tudo  vlido
para o bem-estar da Igreja Fui padre superior e agora ajudo este a ser
responsvel.  um aviso: no se metam!
Durante o jantar, Jos Maria esbarrou num copo, derrubando-o sobre a
mesa.
- Padre Jos - disse o padre superior -, est desastrado e inquieto. V
para seu quarto sem o jantar e fique trs dias sem se alimentar para
aprender a ser mais atento.
Meu filho levantou-se e retirou-se, o esprito do alemo me olhou
desafiadoramente.
O ex-escravo, que vigiava os dois, veio conversar comigo:
- Senhor Loureno, tente evitar que o padre Jos se envolva com esses
dois. So maus!
- no merecem eles ajuda? no so os enfermos que necessitam de mdico?
- Quando nos sentimos doentes, sr. Loureno,  que queremos mdico, mas
eles no se sentem necessitados. Como vo ajud-los? Tambm no queremos
a ajuda de vocs, porm os respeitamos e no os queremos envolvidos nesse
assunto. Tudo passa e estes dois tero a parte que lhes cabe. O senhor
tem notcias do padre Lenizo? Ele tambm foi vtima deles e poder querer
se vingar.
no respondi. Fiquei apreensivo com o castigo do meu filho, ele era magro
e fraco, sentiu fome, mas no se queixou.
Fui visitar Lenizo na colnia, ele estava bem. Apresentei-me explicando
quem eu era e ele me recebeu com carinho. Havia perdoado de corao, s
que sentia-se constrangido e envergonhado. no queria ter se apaixonado.
- Padre Lenizo - disse-lhe -, no se sinta assim. no teve culpa!
105\

- Sinto-me responsvel por Maria. Embora no tivssemos a inteno de
conquistar um ao outro, o amor nos uniu. Devia ter evitado, pedido para
no ir mais l, mas fui adiando, no tive foras, queria s v-la. Acabei
fazendo-a sofrer!
- Talvez seja reencontro do passado - falei.
- no, indaguei isso a um dos meus instrutores e ele se certificou. Maria
e eu no somos afetos do passado, nunca reencarnamos juntos.
- no reencarnamos para aprender a amar? Fazer afetos? - falei tentando
anim-lo. - Vocs dois tiveram muitas coisas em comum. Maria, oprimida
pelos pais, pela sociedade, teve em voc a compreenso, no a tratou como
um ser inferior. Voc entrou para o sacerdcio muito jovem, talvez no
era isso o que realmente queria. Carentes, com afinidades e com as mesmas
idias, se enamoraram.
- Obrigado por suas palavras. Mas sinto padre Jos preocupado. Que se
passa com ele?
- Ele sabe que voc foi assassinado e no sabe o que fazer em relao a
isso. no quer ficar omisso. Por tentar ajudar o padre superior a no
errar mais, est de castigo sem se alimentar por trs dias.
- Gostaria de conversar com ele. Ou melhor, agora no sei se isso 
possvel, mas v-lo. Ele gostar de saber que perdoei e que no guardo
mgoas.
um dos seus instrutores que estava presente e ouvia nossa conversa
opinou:
- Tem permisso, padre Lenizo, de visit-lo. Loureno poder lev-lo e
traze-lo. V ver seu amigo!
Trouxe Lenizo, era de noite, Jos Maria estava preparado para dormir,
estava cansado. Com a desencarnao do amigo, ele assumira todo o
trabalho da escola dos pobres,  noite. Ele sentiu a presena de Lenizo.
Os dois conversaram mentalmente, entenderam-se. A amizade dos dois era
pura, desinteressada e um estava preocupado com o outro, com intuito de
se ajudar mutuamente, queriam ambos o bem estar do outro e houve um
intercmbio que foi mais sentido que verbal, foi compreendido.


"Padre Lenizo,  voc? Est bem, amigo?"
"Estou bem! Vim s para agradec-lo e pedir para no se preocupar comigo.
Perdoei, amigo! O perdo desata os ns da animosidade. Perdoei! Necessito
tanto de perdo!"
"Se perdoou a outros, perdoe a si mesmo! - disse meu filho. - Perdoe-se!"
Lenizo sorriu, o amigo estava sempre o ajudando entendera o que se
passava com ele. Sim, ele necessitava perdoar a si mesmo. Ia tentar
fazer, era preciso. Respondeu com carinho:
"Padre Jos, agradeo-lhe! Obrigado!"
"Alegro-me por saber que est bem" - respondeu Jos Maria.
"no se envolva com o padre superior-disse Lenizo.
- Vamos am-lo somente. Nossas vibraes o ajudaro. Ele pensa, tem
certeza de que agiu certo".
"Tenho que alert-lo! - exclamou meu filho. - J pensei em escrever ao
bispo. Mas no tenho como provar e no tenho boa fama com as autoridades
da Igreja. Sou um revolucionrio!"
"no se exponha, padre Jos! Cuidado!"
"Obrigado pela visita! Venha sempre que puder. Inicie vida nova e, como
perdoou a outros, no esquea de ser benevolente com voc. V em paz,
amigo, seja til onde estiver."
Padre Lenizo o abraou e chorou emocionado. Voltamos  colnia e, aps
deix-lo, voltei para perto do meu filho.
Soubemos que Maria ia casar. Meu filho queria dar o recado a ela, s que
ainda no tivera oportunidade. Mas esta surgiu: Maria com a me e as
cunhadas vieram se confessar. Jos Maria, desobedecendo as ordens do
padre superior, pois estava proibido de atender os ricos, entrou rpido
no confessionrio para atend-las, e quando Maria ajoelhou-se, ele lhe
deu o recado:
- Maria, padre Lenizo morreu nos meus braos. Ele pediu que, se houvesse
oportunidade, eu lhe falasse que ele a amou muito e por isso a quer
feliz. Voc, filha, deve esquec-lo e tudo fazer para estar bem.


- Obrigado, padre Jos! Sei que era amigo de Lenizo, ele me falava sempre
com carinho do senhor. Estou sofrendo sem ele, j pensei at em morrer,
me suicidar, mas tenho medo. Amei-o e amo-o ainda, acho que no vou
esquec-lo. Quis ir para o convento, mas meu pai no deixou. vou casar e
no amo meu futuro marido.
- no pense em morrer, filha! Suicdio  um pecado grave. Depois ir
morrer  toa, pois no ficar com Lenizo.
- Se fizer isso sei que irei para o inferno. Lenizo deve estar no Cu!
-  mais ou menos isso - disse Jos Maria. - Lenizo est bem e quem se
suicida passa por perodos difceis e normalmente longe dos entes
queridos. Esquea-o, Maria! Case e tente amar seu esposo. Quando for me
sentir o amor maternal que far esquecer isso tudo. Viva, filha! E seja
feliz!
Maria ficou mais consolada, mas pela desobedincia, Jos Maria foi
proibido de tomar as refeies com os outros padres no refeitrio.
Deveria se alimentar na cozinha com os empregados e escravos. Ele no
achou ruim, s que comia menos, porque estava sempre dando parte do
alimento a algum. E ali na cozinha tinha muitas oportunidades de
conversar com os escravos e empregados, ajudando-os com conselhos e
sugestes.
Maria casou-se e Jos Maria foi impedido de ver a cerimnia, mas orou
muito para que ela fosse feliz.
Lenizo adaptou-se rpido  vida desencarnada, foi estudar e logo estava
sendo til. Perdoou a si mesmo. O difcil no  perdoar a outros, e sim a
ns mesmos, mas  importante nos perdoarmos e iniciar com firmeza e
esperana a reparao dos nossos erros.
Padre superior passou a evitar Jos Maria. Antes se encontravam no
refeitrio, agora se viam raramente e quando isso acontecia s se
cumprimentavam, ele no se dirigiu mais ao meu filho, nem para dar
ordens. Assim Jos Maria no conseguiu mais orient-lo, ou melhor, tentar
fazlo entender que agia errado.
Conversava sempre com o ex-escravo que vigiava o padre superior, fui at
o grupo dele para visit-los. O grupo
108

era de vingadores e Os mestres vieram da Europa fundaram algumas escolas
no umbral. Receberam me bem e deixaram claro que no aceitavam minhas
idias e deveria fazer minha parte, meu trabalho, sem incomodlos, e o
chefe me advertiu:
- no gostamos do padre Jos e nem dos seus atos, mas o respeitamos.
Tambm reconhecemos que ele  um grande homem e corajoso! Ele luta com
outras armas e ns usamos as mesmas que nossos inimigos. no interfira!
Senti-me derrotado e triste. Fui  colnia pedir conselho. Escutei-os de
um instrutor:
- Loureno, foi vlido tentar ajudar esses vingadores. Porm, meu caro,
temos nosso livre-arbtrio, ns e eles fazemos dessa liberdade o que
quisermos, s que tudo fica dentro de cada um, registrado. Sabemos dessas
reunies. Ao virem para estas terras os imigrantes encarnados, vieram
tambm os desencarnados e aqui instalaram-se. Os bons comearam a
construir, outros foram para o umbral organizar locais para se
estabelecerem e muitos vieram atrs de seus algozes. Voc no deve
interferir, ajude-os se vierem lhe pedir. no se sinta triste. Ame-os, o
amor anula o dio.
Voltei para perto de Jos Maria e motivei-o a continuar seu trabalho na
escola dos pobres. E ele tambm permaneceu no grupo abolicionista. Um dia
o desencarnado que vigiava o padre superior veio me procurar.
- Senhor Loureno, estou aflito! Quero ajudar minha filha encarnada e no
sei como. Meu grupo no tem como auxili-la.
- Fale, meu amigo - disse -, se eu puder, ajudarei com prazer.
- Ela  escrava na Fazenda Santa Teresa, que fica aqui perto. Minha filha
ama um outro escravo,  amada, s que o sinh tem outros planos para ela,
a quer como amante. Ela est sofrendo muito e tem medo. Esto planejando
fugir, mas se no tiverem para onde ir, se daro mal. Vocs que ajudam os
fugitivos, no poderiam ajud-los?
109

Ele me deu todos os dados. Tentei transmitir isso ao meu filho. no 
fcil! Falei a ele por muitas vezes, prestou ateno, mas no consegui
transmitir e nem ele captar todos detalhes, mas ficou a idia, os fatos
principais.
Trs dias depois o grupo se reuniu e Jos Maria lhes falou:
- Na Fazenda Santa Tereza h um casal de escravos que querem fugir. Ser
que no podemos ajud-los?
- Como se chamam? Quem so eles? - indagou um do grupo.
- no sei! - respondeu meu filho. - Parece que o fazendeiro est
molestando a mocinha.
- Conheo aquele homem - disse Josias. - Este fazendeiro costuma ter as
jovens escravas como amantes. Mas como ajud-los?
- Meu cunhado  feitor l - disse Firmindo. - no faz parte do nosso
grupo por medo, mas tem idias abolicionistas. Talvez ele nos ajude.
- Pea a ele para nos ajudar - disse Josias -, para marcar a fuga para
este sbado  noite, e avis-los para se dirigirem  Pedra Redonda.
- Por que l? - indagou um deles.
- Estarei l e indicarei para onde eles devem ir
- respondeu Josias. -  arriscado comentar com algum a respeito da casa
assombrada. A Pedra Redonda  caminho e todos sabem onde fica. Estarei
l, no deixarei que me vejam, indicarei o caminho e explicarei a eles o
que fazer. Agiro como o outro escravo, ficaro l at as buscas acabarem
e depois iro para o quilombo.
- E se no der para eles fugirem neste sbado?
- indagou Firmindo.
- Que faam no prximo - respondeu Josias.
- E se meu cunhado no quiser se envolver?
- perguntou novamente Firmindo.
- Pea a ele, diga-lhe que o grupo ficar devendo-lhe este favor -
respondeu Josias. - Mas leve este dinheiro a ele. Talvez o faa por isto.
A reunio acabou. Eu acompanhei as negociaes. O feitor aceitou o
dinheiro, deu o recado aos dois jovens
110

apaixonados, que no sbado  noite fugiram. Josias os esperava, falou-
lhes da casa. Os dois tiveram medo, mas foram, e os desencarnados que l
estavam no os assombraram, tentaram at ajudar. Dias depois, seguindo as
recomendaes de Josias, partiram para o quilombo e tiveram mais uma fuga
com sucesso.
O pai da jovem escrava, o vigia desencarnado do padre superior, veio me
agradecer:
- Obrigado, sr. Loureno! Deus lhes pague! Tornamo-nos amigos e eu acabei
por convenc-lo a
esquecer as mgoas, perdoar e aceitar um socorro, ele assim fez. Porm
veio outro da organizao, do grupo de vingadores, para substitu-lo com
um recado para mim.
- Mosso chefe mandou lhe dizer que no deve interferir mais em nossos
assuntos. no quero conversa com voc, no irei responder quando se
dirigir a mim. Faa o seu trabalho e deixe-nos fazer o nosso.
Este realmente agiu assim, no ficava perto de mim, nem respondia aos
meus cumprimentos e continuou atento ao seu trabalho.
Jos Maria continuava trabalhando muito e era cada vez mais amigo dos
pobres e escravos, que o queriam bem e retribuam com carinho o amor que
ele dedicava a todos.
111 ainda por anos. Era trabalhoso organizar tudo. Como ia bem, o padre
superior o deixou encarregado de cuidar dos empregados e escravos, e
estes eram bem tratados e, mesmo sem que a congregao quisesse, servia
de exemplo, de um bom exemplo. Os empregados e escravos bem alimentados e
sem maustratos rendiam mais, pois trabalhavam felizes.
Jos Maria lecionava pouco no colgio, dava aulas para os meninos com
menos idade. Era timo professor e a garotada gostava dele, mesmo depois,
vrios anos letivos mais adiantados, estavam sempre procurando-o para que
os ajudassem em algumas matrias. Ensinava-os com muito gosto e carinho.
Passou a ir trs vezes por semana na escola  noite. Mesmo cansado ia
alegre e ensinava os pobres, os que no conseguiam pagar para aprender.
Havia uma senhora rica e viva que gostava muito do meu filho e exigia
que ele fosse  sua fazenda uma vez por ms para confess-la. Como dava
generosas esmolas ao convento, o padre superior permitia que ele fosse.
Esta senhora preparava deliciosos lanches e o fazia comer.
- Coma, padre Jos - dizia ela delicadamente. - O senhor precisa se
alimentar. Est to magro!
Conversavam amigavelmente, meu filho a alertava da igualdade entre os
filhos do mesmo Deus.
- Padre Jos - disse ela um dia -, por que Deus sendo pai dos negros os
deixa ser escravos? Por que Ele os pune?
112

 Ser que Deus, Pai Amoroso  quem pune? Ou somos ns mesmos que traamos
nosso destino? Creio que Deus  Misericordioso e ns devemos ser tambm
Ele nos ama e ns devemos amar uns aos outros. O porqu de muitas coisas
no sei explicar. Deus  Justo! no deve condenar ningum ao inferno
eterno, deve nos mandar de volta  Terra quantas vezes for necessrio
para que aprendamos.
A senhora no entendeu bem, mas se ps a pensar no que gostaria que lhe
fizessem se ela fosse negra e escrava. Deu carta de alforria a todos seus
escravos. Houve confuso. Seus herdeiros acharam ruim e culparam Jos
Maria, concluram que foi ele que induziu a rica senhora a tomar essa
atitude.
A senhora o defendeu, disse a todos que a idia fora dela, mas ningum
acreditou. Numa visita ela disse ao meu filho:
- Padre Jos, espero no lhe ter trazido problemas. Fiz o que achei
melhor.
- Foi um gesto bonito da senhora! no ligue para crticas e comentrios.
Agiu conforme sua conscincia e atos generosos no so entendidos por
muitos. Alegro-me por t-la como amiga! Orgulho-me do seu gesto.
- Meu consolo - disse ela -  que nem Jesus agradou a todos! Tudo passa,
ns, eles e a escravatura. Logo esquecero meu gesto.
Muitos dos ex-escravos, dos libertos, ficaram como empregados na fazenda
dessa senhora, mas outros saram querendo desfrutar de sua liberdade e a
confuso piorou. no achavam emprego, comearam a passar fome e ser
acusados de furtos e arruaas, e realmente muitos os fizeram.
A cidade ficou em alerta, Jos Maria teve que interferir. Arrumou emprego
para alguns, aconselhou outros a voltarem para a fazenda e outros a
partir.
Entristecemo-nos, vimos que no bastava ser liberto, tem que saber agir
com a liberdade. Que no bastava libertar os escravos, tinham que dar
meios para sobreviverem dignamente.
O grupo abolicionista incomodava a elite da poca. Os escravocratas da
regio estavam inquietos e atentos.
113

Muitas fugas estavam sendo realizadas sem deixar rastros e empenharam-se
para acabar com o grupo.
Naquela noite haveria reunio, eles iam se reunir numa clareira no bosque
.lugar agradvel, no longe da cidade, onde havia um riacho com uma
bonita cachoeira.
Jos Maria teve um dia agitado, com muitos problemas na obra, fiquei
ajudando a resolv-los.
Depois da aula da noite, foi para seu quarto e arrumou tudo para ir 
reunio. No horrio marcado, uma hora da madrugada, saiu cauteloso do
quarto, acompanhei-o. Fez tudo como de costume: subiu na rvore, amarrou
a corda no galho, desceu rente ao muro, escondeu a corda e andou
apressado. no havia ningum na rua, chegou rpido ao local do encontro.
Logo foram chegando seus companheiros e um ex-escravo desencarnado veio
aflito me avisar, ou avisar-nos, porque eu no era o nico desencarnado,
outros acompanhavam o grupo tentando ajud-lo.
- Amigos! - disse nervoso o escravo. - Fomos trados! Firmindo, por
dinheiro, delatou o grupo e uma emboscada est sendo preparada. Prendero
todos!
Verificamos, ele falava a verdade, muitos homens armados cercavam o
local. Tentamos alert-los. Aproximeime de Jos Maria.
"Filho, onde est Firmindo? no veio! Traiu-os! Foram descobertos!
Prestem ateno, fujam depressa!"
Jos Maria ficou inquieto e disse aos companheiros:
- Estou com uma sensao estranha! Acho que fomos descobertos!  melhor
adiar a reunio!
- Tambm estou inquieto - disse um outro. - Estou receoso.
- E Firmindo? Por que no veio? - indagou outro.
- Deixem de besteiras! - exclamou Josias. - Em todas as reunies algum
tem esse receio. Nada de mau acontecer. Firmindo deve ter tido problemas
ou deve estar atrasado. Vamos ao nosso assunto...   Escutaram um barulho.
Ser Firmindo? indagou um do grupo.
-' "Jos Maria - insisti -, vocs foram descobertos. Fujam! Foram
trados!"
114

Ele hesitou, pensou que talvez a sensao de perigo era porque estava com
medo, eu persisti. Os outros desencarnados tentavam tambm alert-los.
Essas situaes so muito difceis para ns, desencarnados. Vimos o grupo
armado rode-los, vinham com cuidado para atocai-los, com inteno de
matar ou prender. Pedi socorro aos amigos da colnia, mas recebi a
resposta de que no tinham como interferir.
Meu filho acabou por falar:
- Sinto, amigos, mas acho que fomos descobertos. Acabemos com a reunio,
se nada acontecer, ser marcada para outro dia. Dispersemo-nos! Rpido!
Alguns correram e escutaram um tiro. O grupo se desfez rpido, mas
estavam cercados. Fiquei ao lado de Jos Maria, que no se apavorou e
tentou proteger os amigos. Foi agarrado por dois homens e imobilizado.
Alguns de seus companheiros estavam armados e houve troca de tiros. Dois
deles tombaram feridos mortalmente e um do outro grupo tambm.
Acenderam uma tocha, um deles, um fazendeiro do local que liderava o
grupo, iluminou o rosto dos prisioneiros. Seis foram capturados. O grupo
era de onze: Firmindo, que no veio, dois que morreram ali, seis que
foram presos e dois que fugiram.
O fazendeiro foi olhando um por um, ao ver Josias, exclamou admirado:
- Ora, veja s, o mulherengo do Josias! Quem diria que esse almofadinha 
um abolicionista. Vai matar seus pais de desgosto! Padre Jos? no 
possvel! Ser mesmo?
Espantou-se quando iluminou o rosto de meu filho.
-  sim! - disse um deles. -  o padre, embora esteja vestido com roupas
comuns,  o padre. Conheo-o!
- Levem os prisioneiros para minha fazenda. Prendam-nos na senzala, onde
deixo os escravos fujes. Menos Josias, sou amigo do pai dele. vou lev-
lo para sua casa. Tambm no leve o padre, vamos deix-lo no convento, o
entregarei ao padre superior. no gosto de me meter com padres. Deve dar
azar matar um!
Jos Maria escutou quieto, quando o fazendeiro terminou de falar, ele
disse:
US

- Sou o lder do grupo! Alis, no existe grupo, sou s eu. Convidei-os
para que viessem se aliar a mim. Nunca vieram antes. Sou s eu e os dois
que morreram.
Gargalharam.
- Quer que acreditemos que  heri sozinho? - falou o fazendeiro com
ironia. - Sabemos que so dez ou onze e como agem. Acha que sou tolo de
acreditar que um padre franzino tenha feito sozinho essas fugas? Vamos
embora!
Alguns homens levaram os quatro prisioneiros para a fazenda. Outros
ficaram com Josias, e o fazendeiro com outros dois levaram Jos Maria
para o convento. Fizeram muito barulho, bateram no porto e gritaram pelo
padre superior. Acordaram todos e o superior veio apressado.
- A bno, padre superior - disse o fazendeiro.
- Demos um fim ou estamos dando um fim no grupo abolicionista que estava
fazendo arruaa na regio, fazendo a ns, donos de escravos, de bobos.
Entre eles, imagine o senhor, encontramos um padre daqui. Em respeito 
religio e ao senhor, nada fizemos a ele, o trouxemos preso. Espero que
tome as providncias, porque no vou tolerar v-lo solto por a. Est
espantado? Veja o senhor mesmo! no  o padre Jos? Pois bem, aqui est!
Vamos embora que temos muito que fazer. Ah, tem mais, ele disse ser o
lder do grupo, se , no sei, nosso delator no deu nomes. Um deles o
traiu, recebeu boa quantia de dinheiro, mas no ir aproveitar riu
cinicamente. - Boa noite!
- Boa noite!
Foi s o que o padre superior conseguiu dizer. Acordara com o alvoroo,
assustou-se e ficou ainda mais assustado ao ouvir o fazendeiro, s
conseguiu mexer a cabea. O fazendeiro retirou-se com seus homens.
Padre superior coou a cabea, suspirou. Os padres, todos do convento,
estavam ali. Acordados, vieram ver o que estava acontecendo. O
desencarnado alemo estava atento, e o ex-escravo preocupou-se. Eu
tentava ficar calmo, e Jos Maria estava tranqilo.
- Seu miservel! - exclamou por fim o padre superior. - Envergonha-nos!
Ter que ouvir insultos desse fazendeiro grosseiro. E pior que ele tem
razo. Lugar de
116

padre  na igreja e no defendendo esses negros sujos. Vocs dois -
apontou para dois padres -, segurem um em cada brao dele. Darei a ele a
lio que merece!
Pegou o chicote que ficava dependurado atrs da porta e chicoteou Jos
Maria nas costas. Esta atitude surpreendeu todos, at o alemo, e eu pedi
a ele:
- Por favor, impea-o de fazer isso! Eu? Claro que no!
Fiquei atrs dele. Mas as chicotadas, o chicote, passavam por mim sem me
lesar e iam com fora nas costas dele. Meu filho no se mexia, os dois
no precisavam segurlo, mas na medida em que o chicote lhe cortava a
carne, tiveram que ampar-lo. Jos Maria tonteou e desmaiou. Padre
superior parou e ordenou rpido:
- Levem-no para o poro e deixem-no l!
Sofri muito. Como  triste ver pessoas que amamos sofrer injustamente.
Mas lembrei dos ensinamentos de um dos meus instrutores: "Antes ser
imerecido o castigo, receb-lo inocentemente, que ser culpado". Queria
ter recebido as chicotadas no lugar dele, sofrido por ele. Jos Maria
permaneceu tranqilo, segurou os gemidos, na sua mente vieram as cenas do
flagelo de Jesus. Ele tambm foi aoitado. Meu filho sabia que era
perigoso ser abolicionista, correu os riscos. S se preocupou com os
companheiros e pedia ajuda a Deus por eles, mas no para si.
Dois padres o levaram para o poro, abriram a porta e o jogaram. Na
queda, caiu em cima da perna direita e a quebrou. Novamente perdeu os
sentidos. Fecharam a porta e ele ficou na mais completa escurido. Chamei
pelo mdico meu amigo. Ele veio e aplicou um remdio que lhe tirou um
pouco as dores. Ele despertou.
-  necessrio, Loureno, que ele enfaixe a perna antes que ela inche.
"Jos Maria, meu filho - disse-lhe com carinho -, tire a camisa, o que
resta dela, e enfaixe a perna".
Ele sentou-se e me atendeu. Com dificuldade tirou a camisa retalhada e
toda suja de sangue e enfaixou a perna.
Estava ofegante, deitou no cho de bruos, nosso amigo mdico deu-lhe um
passe e ele adormeceu.
117

- Est muito ferido e necessitado de gua e cuidados. Loureno, acalma-
se! Inquieto no o ajudar. Voltarei para v-lo.
Foram dias terrveis. Padre superior no deixou ningum ajud-lo. S lhe
deram gua. Ele sentiu muitas dores e teve uma febre que o fez delirar.
Fiquei ao seu lado, como tambm muitos amigos desencarnados vieram v-lo.
S com a ordem do padre superior iria ser libertado, tentei fazer que o
tirasse do castigo. Jos Maria no iria resistir por muito tempo, fraco,
com febre alta e sem se alimentar, jogado no poro mido e frio que s
tinha uma escassa claridade durante o dia. Pedi humildemente ao alemo
no temos por que ajud-los. Deveriam ter ficado quietos em vez de
auxiliarem esses seres imundos.
O grupo de vingadores no quis interferir. Orei pedindo ajuda, ento veio
um esprito que se apresentou a ns: Sou um cardeal, fui um cardeal e
como superior vocs me devem obedincia. Aqui vim para que libertem o
padre Jos.
Olhou para o alemo, que ao v-lo se alegrou, depois desconfiou, mas
ficou quieto ouvindo-o.
- Sabe que age errado. J foi advertido vrias vezes. J escutou
conselhos e vocs dois continuaram agindo erradamente. Quero que fale ao
padre superior, que ele liberte e mande cuidar deste padre.
O desencarnado alemo temeu, ali estava um superior dele, sem muita
vontade obedeceu. Chegou perto do padre superior e cochichou ao seu
ouvido, porm o ouvimos.
" melhor mandar soltar o padre Jos e cuidar dele, seno ele ir
morrer."
"Que morra! - pensou o padre superior. Nem a congregao e nem o convento
perdero nada".
O alemo inquietou-se diante do olhar desse esprito e insistiu:
"Solte-o e cuide dele j!"
No mesmo instante o padre superior atendeu, demonstrando o quanto os dois
agiam juntos. Foi por isso que esse esprito que veio nos ajudar ordenou
que o alemo desse a ordem ao padre superior. Sabamos que ele tinha
influncia
118

sobre este. Sem hesitar, como se tivesse resolvido um problema, o
superior chamou um dos padres e deu a ordem:
- V ao poro e socorra aquele infeliz do padre Jos Pea ao padre Afonso
para cuidar dele.
Suspirei aliviado e agradeci a interferncia desse bondoso esprito.
O padre saiu apressado para cumprir a ordem, chamou dois escravos e foram
ao poro. Estremeceram de pena ao ver Jos Maria, o pegaram com cuidado e
o levaram para o quarto. Deram-lhe leite quente e um banho e chamaram
padre Afonso para cuidar dele. Padre Afonso e os dois escravos limparam
cuidadosamente os ferimentos e enfaixaram novamente sua perna. Deixaram-
no em seu leito.
Jos Maria, nesses cinco dias que ficou no poro, no reclamou. Agora no
seu leito deu graas a Deus, sentiu-se confortvel e a febre cedeu. Um
escravo foi escalado para cuidar dele e o fez com muito carinho. Estava
fraco, magrrimo e no conseguia nem sentar sozinho, mas sua preocupao
ainda era com os companheiros. Indagou ao escravo que cuidava dele:
- Amncio, voc sabe o que aconteceu com os outros? Com os meus
companheiros?
- Trs foram mortos naquela noite - respondeu o escravo -, dois dos seus
companheiros e um do grupo do fazendeiro. Josias foi embora para o Rio de
Janeiro a mando do pai. H dois presos e dois morreram na senzala para
onde foram levados, dizem que foram torturados. Foi descoberto o
esconderijo dos escravos fujes, a casa malassombrada. Parece que tudo
acabou, padre Jos. Sinto muito. Mas dois fugiram e no foram capturados.
Agora tem o sr. Firmindo, que apareceu morto, enforcado, no se sabe se
tinha ligao com o grupo ou no. Uns dizem que foi ele o traidor, que se
arrependeu e se suicidou.
- Coitado! - exclamou meu filho suspirando.
- Coitados!Jos Maria se recuperava lentamente. Ajudei meu filho a saber
o que aconteceu de fato. Josias foi levado ao pai, que quase teve um
ataque do corao com o desgosto. Dois dias depois foi levado por cinco
empregados ao Rio de Janeiro. L teria que trabalhar para viver. Seu pai
no lhe deu mais dinheiro. Seus tios o abrigaram e o sustentaram at que
arrumou um emprego. Logo ele passou a fazer parte de outro grupo
abolicionista.
Os dois que fugiram foram para a casa assombrada e na noite seguinte para
o quilombo, e de l para outra cidade, onde se estabeleceram e no
quiseram mais lutar por seu ideal.
Os que foram presos foram torturados, contaram tudo e a casa assombrada
foi destruda. Dois morreram e dois ficaram meses presos, depois foram
libertados doentes e marcados pelas torturas. Deixaram a cidade.
Os quatro que desencarnaram foram socorridos por ex-escravos, levados a
um Posto de Socorro. Trs aceitaram o socorro, mas um, revoltado, foi se
enturmar com os vingadores. Conversei com ele muitas vezes, mas no
consegui faz-lo mudar de opinio, optou por se vingar.
Firmindo os traiu por dinheiro, mas no se suicidou. Aps ter delatado os
amigos e recebido a recompensa, ficou na mira do grupo dos escravocratas.
Aps terem efetuado a priso, o fazendeiro mandou trs do grupo  sua
casa, pegar o dinheiro de volta e assassin-lo. Mas deixaram que
pensassem que ele havia se matado. Firmindo desencarnou
120
revoltado e foi levado pelo grupo dos vingadores. Para esse grupo, ele
era o mais vil de todos. Sofreu muito e foi socorrido muitos anos depois.
Jos Maria, com a perna enfaixada, ficou imobilizado, ficava deitado ou
sentado no leito, andava com a ajuda de Amncio pelo quarto.
Padre Afonso cuidava de meu filho, dava-lhe remdios, fortificantes e ia
v-lo quase todos os dias. Entendia bem de medicina e, embora no tivesse
estudado, lia muito sobre o assunto. Com ele estava sempre um esprito
que fora mdico quando encarnado e que ajudava-o a tratar dos doentes.
Conversava muito com os desencarnados que ficavam no convento ou no
colgio, como passou a se chamar depois. Trocvamos idias sobre o nosso
trabalho. Este mdico, Natanael, comentou quando nos reunimos para
conversar:
- Queria tanto que padre Afonso tambm usasse seus conhecimentos para
aliviar as dores dos pobres e escravos. Por mais que lhe pea, ele no me
atende.  fiel ao padre superior e no questiona o que ele diz ou o que
ensina a Igreja, obedece cegamente. Tenho alertado para pensar e achar
solues por si mesmo. no raciocina, acata o que eles dizem. Afirmam que
negros no tm alma, ele acredita e, por mais que lhe mostre a realidade,
insiste em pensar erradamente.
- Eu - disse um outro desencarnado, guia, protetor de um outro padre -
tenho me esforado para que meu companheiro encarnado aja corretamente,
ele mente muito, inventa histrias e aumenta fatos, tento ajud-lo a
vencer esse vcio, mas est difcil.
- Ora - disse outro -, meu trabalho tambm no  fcil. Fui pai de
Armando, o cozinheiro, tenho tentado alertlo para o bem. Ele no  mau,
 trabalhador, mas no quer nem se instruir e nem fazer o bem. Prefere
ver os maus exemplos em vez dos bons.  revoltado contra o mal, mas nada
faz de bom. S ver o mal e nada fazer no resolve a situao. Queria que
ele no reclamasse e ajudasse as vtimas da maldade. 121 Eu tenho vindo
visitar meu filho - disse uma senhora bondosamente. - no queria que
fosse padre, mas j que entrou para a congregao, imaginei que seria um
santo. Mas ele s estuda, leciona tambm,  inteligente, mas alheio aos
acontecimentos  sua volta. Alm dos estudos, nada mais lhe interessa.
Estava conosco uma senhora desencarnada h muitos anos e que fora
escrava, agora tentava ajudar um grupo de encarnados amigos e era guia de
uma escrava. Ela estava em situao diferente de ns, sua protegida
encarnada a via, conversava com ela, a incorporava e se queixava muito
por ela no conseguir melhorar a vida deles. Esta senhora nos disse:
- Vejam, amigos, a minha dificuldade. Amo-a, gosto de todos do grupo e
queria que fossem felizes. Tento mostrar a eles que dificuldades no corpo
fsico so um meio de que dispomos para achar solues e aprender. no
posso fazer o que eles me pedem, no posso resolver todos seus problemas,
me cobram isso e me entristecem.
Entendi que era s eu a no ter queixas do protegido e me alegrei.
Dias depois encontrei Natanael muito triste, indaguei o porqu e ele me
respondeu:
- Padre Afonso no quis cuidar de uma escrava que teve um aborto
espontneo. Teve nojo dela. Eu insisti com ele e nada. S consegui que
ele explicasse a outra escrava o que fazer para ajud-la. Tentamos, a
escrava e eu, atend-la, est com uma forte infeco, talvez no resista
e ela tem quatro filhos. Imagina, ter nojo de um ser humano!
Pensei muito sobre o assunto, querendo saber mais. Fui  colnia
conversar com meu instrutor, meu amigo Josoel, e o indaguei logo aps os
cumprimentos:
- Como seria realmente um bom protetor?
- Tomando por princpio que a herana psquica no mundo fsico  por
necessidade de individualizao egosta, precisamos motivar nos nossos
protegidos os impulsos de solidariedade. Nos mais abastados induzi-los a
sentir com os mesmos problemas, assim ele sentir desejos de ajudar a
outros, pois tiveram a possibilidade de 122 sentir a mesma coisa. Nos
menos afortunados financeiramente, induzi-los a ver que a dificuldade
financeira no os impede de ser benevolentes e que h muitos modos de ser
til. Se o protetor ou guia consegue atingir esses objetivos, pode no
mudar interiormente, na essncia, seu protegido, mas vai coloc-lo num
estado vibracional de solidariedade que o far receptivo  intuio de
que a dor ou a vitria do prximo ser tambm a dele, pois ver que somos
um s dentro do grupo humano. Todos os homens, apesar de terem potenciais
diferentes, sofrem e aspiram as mesmas coisas, tm os mesmos sentimentos.
Enfim, caminhamos para um nico objetivo, ser bom.
- Mestre - disse sorrindo -, sei que no gosta que o chame de mestre...
- Prefiro que me chame pelo nome de hoje, Josoel.  um belo nome, no? J
me sinto gratificado por t-lo, embora, se eu tivesse outro nome, no
faria diferena.
- Josoel - disse acho que a caridade  ponto fundamental e que ela
beneficia a humanidade. Mas tenho notado que a maneira como muitos a
fazem no os modifica, pois muitos a praticam para receber algo mais ou
para se sentir superiores. Eu queria ser bom, no porque Deus quer ou
porque Jesus ensinou, ou algum disse ou ordenou. Mas ser bom porque
minha natureza passou a ser boa. no sei o que fazer para que essa
mudana se realize em mim.
- Loureno, Jesus disse a Micodemos que era necessrio que ele renascesse
pela gua e pelo esprito. O que temos feito ou acontecido? Voc morreu
para o corpo, eu tambm. E voc  o mesmo. Houve uma continuao, embora
em planos diferentes. Somos os mesmos! O Nazareno disse que  necessrio
que renasamos e para isso  necessrio que se morra. Este morrer, no
confunda com a morte do corpo,  uma mutao espontnea que ns
realizamos pela viso da verdade, que  contedo da nossa conscincia.
Pense sobre isso, medite e volte a falar comigo se ainda tiver dvidas.
Despedi-me dele agradecido. Compreendi que Josoel queria que eu pensasse
e achasse por mim mesmo a melhor maneira de fazer essa mudana interior.
123

Dois padres iriam para So Paulo e o padre superior achou melhor mandar
junto Jos Maria. Prometera ao fazendeiro que ele no ficaria mais ali.
- Dever partir - disse padre Afonso a ele. - Ir para o colgio de So
Paulo depois de amanh. Est fraco para viajar, mas o padre superior
achou melhor o senhor partir, e logo.
Jos Maria nada respondeu, ainda bem que o escravo Amncio, que cuidava
dele, iria junto para ajud-lo.
Sua bagagem era duas trocas de roupa e alguns remdios que padre Afonso
preparou para ele.
Partiram de manh, no foi permitido que se despedissem de ningum. Meu
filho olhou tudo com carinho, ao passar perto da casa onde ensinava 
noite, seu corao bateu forte. A casa estava fechada, a escola agora
estava nas mos de alguns alunos, os que sabiam um pouco ensinavam os que
nada sabiam.
"Aqui fui feliz! - pensou. Fui til!"
A viagem foi muito difcil para ele. O escravo tudo fazia para amenizar
seu sofrimento. O caminho era difcil, s vezes ia na carroa em cima das
roupas e pertences de viagem, ora ia a cavalo. Sentia muitas dores,
fraqueza e tontura. Mas no se queixava. Estava sempre animando os outros
que reclamavam ora do calor, ora do sol forte, ora da chuva.
Pensei que ele iria desencarnar na viagem. Meu amigo mdico veio a meu
pedido v-lo muitas vezes.
E como sempre acontecia, logo fez amizade com os companheiros de viagem e
estava aconselhando e orientando a todos, um dia, um dos padres at
comentou:
- Conhecendo-o, padre Jos, vejo-o agora diferente. Padre superior nos
recomendou que ficssemos atentos ao senhor, que era perigoso e
encrenqueiro. Como o senhor pode ser perigoso? Como foi parar no
movimento abolicionista? Por que desobedeceu as ordens superiores?
- Prefiro - respondeu Jos Maria tranqilamente obedecer a voz de minha
conscincia e a do Cristo. O senhor acha que se Jesus viesse  Terra iria
concordar com a escravido?
- Acho que no... - respondeu o padre. &

- Penso como Ele - disse rindo Jos Maria. Chegaram ao colgio de So
Paulo, meu filho estava
fraco, cansado e tinha muitas dores. O superior desse colgio mandou-o
logo para o quarto e pediu a um padre j idoso, padre Marinho, para
ajud-lo. O quarto que lhe foi destinado era pequeno e perto do jardim.
Meu filho se deliciou com um bom banho de gua quente e um leito
confortvel. Bondosamente padre Marinho cuidou dele. O escravo que o
acompanhou veio se despedir trs dias depois.
- Padre Jos, sua bno! Volto para o convento. Estou triste! L no
ser o mesmo sem o senhor.
- Ser sim! - exclamou meu filho. - Todos os lugares so bons quando
estamos de bem com ns mesmos e com Deus. V em paz! Que Jesus o abenoe!
O escravo chorou, e Jos Maria o abraou e disse emocionado.
- Obrigado, Amncio! Voc foi muito bom comigo. Ajudou-me muito!
Com a mudana brusca de clima, meu filho adoeceu. Ficou febril por dias,
com muita tosse e dores pelo corpo. Mas melhorou e se fortaleceu. Sua
perna no ficou mais normal, no tinha movimentos e ele s andava
escorado e com apoio. Passou a ir muito ao jardim e fez amizade com
Osvaldo, um senhor gentil que era o jardineiro do colgio.
Como melhorou, ficou inquieto, queria fazer algo e pediu ao padre Marinho
que intercedesse junto ao padre superior. Este assim o fez.
- Padre Jos - disse bondosamente padre Marinho -, falei com o superior,
ele me disse que a ordem que ele teve foi para que o senhor ficasse como
prisioneiro, no deve sair do colgio e nem lecionar. Mas achamos algo
para o senhor fazer. A biblioteca est precisando de algum para cuidar
dos nossos livros. Aceita?
- Com prazer! - respondeu meu filho contente.
E l foi ele no outro dia para a biblioteca. Organizava os livros com a
ajuda de um escravo, limpava-os e passou a orientar os alunos em
pesquisas e leituras, comeou a ler muito. Muitos amigos desencarnados
estavam sempre visitando-o, um dia, tive uma surpresa, Josias veio nos
ver, falou sorrindo: O senhor ento  o pai do padre Jos? Que bom saber
que ele est bem amparado pela espiritualidade.
Sorri timidamente. Seria eu digno de ser tachado de amparo de algum?
Respondi:
- Caro Josias, Jos Maria  amparado por sua vontade, f e amor. Trs
foras imbatveis. Eu aprendo com ele. Mas me conte, como desencarnou? E
pelo visto est bem.
- Graas aos desencarnados meus amigos, que foram escravos, estou bem.
Reconheo que fiz muitas coisas erradas, mas, como o senhor, estou a fim
de aprender para acertar. Quando o nosso grupo foi desfeito, fui para o
Rio de Janeiro e l arrumei um trabalho numa grfica de um jornal e
passei a fazer parte de um grupo abolicionista. Mas a paixo me traiu.
Explico: me tornei amante de uma linda mulher que era tambm de um
marechal. Estava apaixonado como muitas vezes estive, amos fazer, eu e
mais dois companheiros, uma libertao espetacular de dois escravos que
estavam presos no tronco, numa chcara perto da cidade. A faanha foi
marcada para a noite, e  tarde fui me encontrar com ela. Levado por seu
jogo, falei da aventura que planejvamos. Quando estvamos para ir a essa
chcara, um escravo dessa mulher veio nos alertar que corramos perigo.
Ela, para agradar o outro amante, o marechal, falou a ele dos nossos
planos. Ficamos em dvida se rmos ou no, acabei por decidir:
"Os dois escravos iriam morrer se no fossem soltos. Infelizmente ca
como um bobo nas artimanhas dessa infeliz delatora, mas s contei a ela
que libertaria os escravos, e no para onde os levaria. Sendo eu o
responsvel, no quero que vocs dois se arrisquem. vou sozinho!
"Os dois companheiros no quiseram se arriscar e eu fui, mas aps soltar
os dois escravos fui surpreendido, corri, atiraram, fui atingido e meu
corpo morto. no consegui libertar os escravos, que morreram tambm, mas
com a desencarnao tornaram-se livres.
126
 "Confesso que me perturbei com a desencarnao, mas logo estava bem, fui
tratado com muito carinho pelos negros que tentei libertar desse
cativeiro infame que  a escravatura. Estou bem e tive permisso para
visitar padre Jos e outros amigos, estou estudando para depois trabalhar
arduamente pela libertao dos escravos, nossos irmos negros." no
guarda mgoa dessa senhora que o traiu? indaguei.
- Ora, burro fui eu em me deixar engabelar por ela. Paguei pelo erro de
me envolver com mulheres. Nessa encarnao optei por ficar solteiro, no
queria pr em risco esposa e filhos, quis ser abolicionista e fiz disso
meu ideal e objetivo. E ser abolicionista  perigoso,  arriscar-se, no
me arrependo, desencarnei feliz. Depois, os desencarnados amigos que me
socorreram me falaram muito da necessidade de perdoar. S quero lembrar
dos bons momentos que tive, dos ruins, nem os tive, esqueci.
Josias riu, abraou Jos Maria se despedindo:
- Fique com Deus, amigo! - me olhou e concluiu:
- Acho, sr. Loureno, que meu amigo padre Jos nunca esqueceu que tem a
Luz Divina em si. Est sempre com Deus, sente-O em si e no seu prximo.
At logo!
Alegrei-me com essa visita.
um dia veio a notcia. Padre Marinho contou-lhe a novidade:
- O padre superior do seu antigo colgio faleceu. O quarto dele pegou
fogo e ele morreu carbonizado.
Meu filho se ps a orar por ele e preocupou-se: "Ser que se suicidou?
Foi assassinado?"
Fui saber. O padre superior embriagou-se e uma vela encostou em suas
vestes, no deu para ele apagar o fogo, que se alastrou rpido.
Desencarnou com muita agonia. O grupo de vingadores o desligaram do corpo
carbonizado e o levaram para o umbral, o julgaram e o condenaram a
sofrimentos terrveis e tambm levaram junto o alemo desencarnado.
Fui at os vingadores interceder por ele. O chefe me recebeu demonstrando
desagrado:
127 S o recebo porque foram teis a muitos escravos, voc e seu amigo
encarnado. Mas por que intercede? Ele pediu?
- no - respondi timidamente. - Mas o conheo e...
- Esqueceu por acaso que ele surrou o padre Jos? Que o prendeu no poro
sem alimento?
- Esqueci...
- Se tem a mania dos bons de esquecer as aes ms e lembrar as boas,
diga-me uma boa ao que ele fez para vir aqui interceder por ele.
- Bem - respondi -, no sei, mas no tenho porqu saber, convivi pouco
com ele e...
- Chega, amigo, v cuidar do seu trabalho!
- Por que s agora trouxe o alemo para c? indaguei. Por que permitiram
que ele ficasse junto ao padre superior enquanto estava encarnado?
- Os dois agiam juntos, tiveram o tempo para plantar e agora o de colher.
no o trouxemos antes porque nos convinha que fizessem mais atos errados,
o possvel para que nossa vingana fosse perfeita.
Entendi, so os nossos atos que nos libertam trazendo a paz ou nos
condenam ao remorso dolorido, ou se ainda no estivermos arrependidos,
outros que se julgam credores podem exigir pagamento. Deixaram que ele e
o alemo errassem para que tivessem mais o que cobrar. Quanto maior a
dvida, mais achavam credores.
Nada adiantou meus rogos, no me deixaram vlos. Depois, os dois,
revoltados e orgulhosos, no queriam a ajuda que eu podia oferecer. E por
anos ficaram ali at que a dor os levou ao cansao. Chegaram  concluso
de que agiram errado e chamaram por socorro.
Jos Maria estava contente no colgio da cidade de So Paulo. Estava
aprendendo muito e aos poucos tornou-se querido por todos. Mas sua sade
era precria, andava com muita dificuldade, tinha dores pelo corpo,
estava magrssimo, mas sua expresso era sempre alegre, irradiava paz.
Logo completaria 52 anos.
Ele levantava sempre muito cedo e quando o tempo estava bom, ia ao jardim
ver o sol nascer. E foi num dia assim
128

que sentou-se e ps-se a orar, e eu sentei-me ao seu lado e muitos amigos
vieram visit-lo. Leonor, Marita, Amncio, Lenizo e muitos ex-escravos.
Estranhei. Leonor explicou:
- Jos Maria ir desencarnar. Viemos lhe dar as boas-vindas.
um socorrista aproximou-se. Deu-lhe um passe e ele ficou sonolento.
Sentiu por um instante uma dor forte no peito, seu corao parou, mas
voltou em segundos e sentiu-se bem. Ele nos viu, sorriu feliz e foi
adormecido.
Em poucos minutos estava desligado. Marita explicou a Amncio:
- Jos Maria  desapegado da matria, seu desligamento s podia ser
rpido.
Foi levado para a colnia pelo socorrista e todos os amigos o
acompanharam. Eu fiquei. Olhei para o seu corpo fsico, este era magro,
estava plido, mas sorrindo feliz.
Senhor Osvaldo, o jardineiro, chegou e o cumprimentou:
- bom dia, padre Jos! Est dormindo? Vai chegar atrasado na biblioteca.
Deve estar sonhando com os anjos. Est sorrindo!
Chegou mais perto, examinou-o, depois passou a mo na frente do seu
nariz. Exclamou assustado:
- Meu Deus! Ele morreu!
Saiu correndo a chamar pelo padre Marinho, este veio rpido e constatou:
- Padre Jos faleceu!
Providncias foram tomadas e seu corpo foi velado na capela. No outro dia
pela manh foi enterrado numa cerimnia simples como sua vida.
Quando o enterro terminou, me despedi dos amigos desencarnados que
estavam no colgio por vrios motivos e fui para a colnia. Jos Maria
estava bem, acordou feliz por ver seus amigos. Seu corpo perispiritual
era sadio e despertou refeito, disposto e alegre. Estava na casa de
Marita e Amncio. Fui v-lo.
- Meu pai! - exclamou. - Como  bom abra-lo e poder agradecer tudo que
fez por mim.
129
Sorri. Como aprendi com ele. E como o saber  um tesouro precioso.
Compreendi que o amor  a maior fora de que dispomos e a mais importante
de todas as qualidades, e com ele tive inmeros exemplos de atos de amor.
Jos Maria, curioso, indagava muito, rapidamente se inteirou da vida no
plano espiritual. Dias depois j estava pronto para estudar e continuar
seu trabalho.
Fiquei uns dias com ele e conversamos muito.
- Meu pai - disse ele -, vou estudar e depois me dedicar  orientao das
pessoas que dizem seguir uma religio. Quero auxiliar a todos a ser
religiosos, a ter Cristo no corao e como exemplo. Ter a religio
interiormente, seja qual for, e no s de rtulo. A religio de atos
externos  pouco, muito pouco e no ajuda ningum. Quero despertar o amor
nas pessoas, lev-las a amar a si mesmas e a todas as criaturas. E vou me
empenhar com todo carinho nesse objetivo.
- E eu, meu filho, devo reencarnar. Quero colocar em prtica o que
aprendi.
Meses depois, me despedi dos amigos. Pela bendita oportunidade, voltaria
a um outro corpo. Reencarnaria.Fim
130

Eplogo
Depois de outra encarnao, voltei ao plano   espiritual. Aproveitei a
oportunidade da reencarnao e trabalhei no corpo fsico como
facultativo, me senti realizado com a medicina. Estava contente.
Recordei aps algum tempo todas ou quase todas as minhas encarnaes.
Lembrei de Jos Maria, esse amigo querido que nunca me abandonou, ia
sempre me visitar quando estava no corpo carnal, como tambm veio me ver
muitas vezes quando desencarnado. Tinha-lhe amizade, mas aps lembrar,
entendi que ele era mais que amigo, era um companheiro, um mestre amado.
Quis v-lo e fui visitlo. Nosso encontro foi muito emocionante para mim.
Deilhe um forte e grato abrao.
- Como tenho que agradecer-lhe! - exclamei alegre.
- Com voc aprendi muito.  meu exemplo a ser seguido. Meu filho, me
realizei exercendo meus conhecimentos mdicos nessa minha ltima
encarnao.
Jos Maria sorriu com seu modo agradvel e bondoso, olhou-me
carinhosamente. Ele estava h anos desencarnado, lecionando em colnias
de estudos, tendo como objetivo ensinar, orientar pessoas que usaram
imprudentemente alguma religio. Tambm era mestre de muitos que
almejavam reencarnar e ser religiosos e motivar as pessoas a se
modificarem e a realmente viverem os ensinamentos de Jesus.
- Se voc se sente pleno na medicina, por que no exercitar a plenitude
em outro setor? Na literatura?
- indagou-me.
- Tive uma experincia com a literatura no passado que no foi muito
enobrecedora - falei.
131

Lembranas vieram... Frana... Estava desencarnado quando, numa festa no
umbral, conheci um encarnado que, desligado do corpo enquanto dormia, foi
o homenageado. Era um escritor. no era de muito talento, mas escrevia
muitas besteiras a gosto dos umbralinos. no gostei dele, no sabia o
porqu. Entretanto me senti atrado e passei a ficar junto dele. Aceitou-
me. Ento dava-lhe idias que acreditava serem fabulosas.
Novamente no cito nomes. Esse episdio pelo qual sofremos muito e que no
momento sentimos os erros reparados, foi um perodo em que abusamos do
talento de modo indevido, de algo que nos foi dado como oportunidade de
crescermos espiritualmente. Esse escritor era bomio, escrevia versos no
comeo de sua carreira e os vendia. Depois conseguiu escrever livros,
foram poucos. Abandonou a mulher e dois filhos e passou a viver com
amigos afins, que ele sustentava. Diverti-me junto deles. Eram alegres,
bebiam muito e viviam fazendo intrigas e chantagens. Ele teve muitos
amores, porm mesmo errando muito essas pessoas do grupo eram amigas.
Ajudava-o. Ser que  o termo correto? Ajuda no  quando s fazemos o
bem? Era o que eu achava que fazia na poca. Advirto os encarnados da
necessidade de se acautelar e de aprender a distinguir o que  bom do que
 ruim. Achava imprudentemente que o auxiliava inspirando-o a fazer o que
ele queria. Mas o que queremos  sempre bom para ns? no . no foi a
nenhum de ns. Erramos muito. Continuei no gostando dele, mas gostava de
seus amigos e para que todos vivessem bem financeiramente, precisava
inspir-lo, porque todos viviam de seus escritos e das conseqncias
deles. Eram histrias picantes, erticas, em que sempre colocava suas
idias atestas. Deus existia s na imaginao dos tolos e os mais
inteligentes no precisavam dessa muleta. Um chantageado o assassinou.
Desencarnou com
51 anos, no auge da existncia desregrada. Ficou tempo no corpo, vendo-o
apodrecer. Dispersaram-se os amigos, repartiram o que ele tinha e saram
dali, da casa em que viviam. Acompanhei um deles, o que mais gostava.
Depois de anos reencarnei longe deles.
132

Jos Maria aquietou-se enquanto pensava, depois indagou calmamente:
- Por que no dignificar ento essas experincias transformando-as em
trabalho, como tambm criar ambiente para que outros tambm se
transformem?
- Pensei que ficaria um bom tempo no plano espiritual. Devo reencarnar?
Ou como poderei me exercitar estando desencarnado? - perguntei
preocupado.
- Poder fazer no plano que est, desencarnado! Voc no o inspirou a
escrever no passado? Agora poder inspir-lo novamente.
- Mas?! - balbuciei.
- Voc j no fez isso? E o fez de modo indevido. Por que no fazer agora
para o bem? Por esse trabalho faro as pessoas crerem de modo certo. S
que no ir inspirlo, mas escrever por seu intercmbio. Agora essa
pessoa, o escritor do passado,  mdium e tem um bom potencial.
-  algo difcil! Esse esprito no tem mais o dom, o talento de
escrever. Ele no sabe nada!
- Quem teve, sempre ter. Agora adormecido, poder ser despertado. Depois
ser voc que ir escrever.
- Vai ser trabalhoso! Teremos que treinar por anos
- falei desanimado.
- Foi fcil voc motiv-lo ao mal? Por anos inspirou-o. Por que quer
facilidades? Merece?
Envergonhei-me. Entendi que aqueles que merecem so os que normalmente
no as tem. E nada se faz bem feito sem o trabalho perseverante e
honesto. E se tratando desse intercmbio medinico, sempre  necessrio
treino, estudo e aprendizado.
Jos Maria, falando tranqilamente, me elucidou:
- A beleza e o prazer de realizar um trabalho esto contidos no desafio
de uma dificuldade. Junto com essa mdium poder exercitar a pacincia do
amor, da dedicao a um ser humano e, como nos ensinou Jesus, amar o
prximo como a si mesmo. Se quer crescer ajude o prximo como se fosse
para si mesmo. Se voc quer realizar, possuir a plenitude da vida, ajude
os outros a fazer o mesmo. Depois, esto encarnados todos que fizeram
parte dos
133
acontecimentos daquela poca. Ningum coloca culpa no outro, todos esto
cientes de sua parte no erro. Quando chegar o momento certo, se
encontraro e creio que cada um far sua parte. Vamos rev-los?
Como deve ter percebido o leitor amigo, a antiga esposa, o escritor ateu,
Lourdinha e agora minha companheira de trabalho so um s esprito que
aprende a amar espelhando-se naqueles que amam.
Aps anos de trabalho, de convivncia mtua, j no ramos dois, mas sim
um s, pois para que o trabalho fosse bem feito foi preciso que eu
ajudasse a mdium no seu dia-a-dia. Para ajud-la com eficincia era
necessrio que eu a compreendesse, e para compreender o ser humano 
preciso ter as mesmas emoes, viver as suas dores, alegrias, esperanas
e frustraes. Um belo dia entendi que j no fazia aquele trabalho para
conseguir algo, mas sim por amor.  toda a razo de minha vida. E todos
que fazem parte dessa atividade: a mdium, as pessoas que com ela
convivem, colaboram e os leitores, so seres a quem eu dedico um amor
imenso. Eu e eles j somos um s. Amo-os intensamente.  um amor que
nasceu na ausncia de posse ou de resultados programados. Para mim, Deus
est no trabalho, nos colaboradores e naqueles que usufruem desse
trabalho. no vejo Deus, sinto-O em todos!!!
